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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Especial expulsão dos jesuítas - Cortados pela raiz

Pombal não é o único culpado. Interesses ingleses contribuíram para a expulsão da Companhia de Jesus


Tiago C. P. dos Reis Miranda


Existe ainda uma certa tendência para explicar a expulsão dos jesuítas com base em aspectos da biografia do todo-poderoso marquês de Pombal. O primeiro desses aspectos é a sua passagem como diplomata pelo Reino Unido (1739-1744), onde teria ficado “infeccionado” pela heresia anglicana. O segundo teria a ver com certas características de personalidade, que se traduziriam numa espécie de impulso persecutório, decididamente voltado contra os missionários logo no início do seu longo período de maior influência na governação (1756-1777). 

Mas nem tudo se explica por fatores pessoais, nem os fatores pessoais dispensam também sua história. Sabe-se, por exemplo, que a ascensão de Sebastião de Carvalho ao posto de secretário de Estado, em 1750, contou com o apoio de jesuítas próximos da Corte. Durante algum tempo essa relação resultou, inclusive, numa maior influência dos sacerdotes sobre os negócios do Reino e do Ultramar – onde, na época, se iniciavam os trabalhos para a delimitação das fronteiras ao sul do Brasil, fixadas com o Tratado de Madri.

Para entender o processo de expulsão da Companhia de Jesus dos domínios portugueses, é preciso considerar o complicado equilíbrio entre as diversas potências europeias em meados da década de 1750. Multiplica-se então uma série de contatos e acordos diplomáticos, com resultados surpreendentes. De uma hora para a outra, a França, a Áustria e a Rússia se aliam contra a Inglaterra, a Prússia e o Estado de Hanover. Nesse primeiro momento, Parma, Espanha e as duas Sicílias mantêm-se neutras. O mesmo acontece com as Províncias Unidas (Países Baixos), literalmente entaladas entre os dois lados. De uma forma geral, a sensação é de perigo iminente. O início das hostilidades em campo europeu ocorre em maio de 1756, com a invasão de Minorca (no Mediterrâneo) pelos franceses. No fim do verão, Frederico II, rei da Prússia, ataca a Saxônia.

Portugal acompanha as notícias das tropas e as perspectivas de novas batalhas em posição de angustiante fragilidade. Porque, além de ter o Exército e a Marinha extremamente mal equipados e quase sem treino de guerra efetiva, vê a cabeça do império ainda sujeita aos últimos rescaldos do grande terremoto de 1º de novembro de 1755. Os arquivos do reino estão praticamente desfeitos. O rei e a Corte, vivendo em barracas. Tudo é muito precário, diante da ameaça de ter de escolher um aliado europeu ou fazer frente a uma possível invasão estrangeira. Ao mesmo tempo, sucedem-se diversas disputas internas pelo governo, que acabam levando à mudança de dois secretários de Estado e vários ministros das legações diplomáticas, com uma clara derrota política da alta nobreza e dos simpatizantes da Companhia de Jesus. 

Do Brasil chegavam informes com impressões nada favoráveis sobre a atuação dos religiosos. Em relatos como o do general Gomes Freire de Andrade, comissário para as Partes do Sul, e o do governador do Maranhão e do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, os padres eram acusados de não colaborar com as missões demarcatórias nas fronteiras, de incitar o desacato aos representantes da Coroa e pretender a constituição de um Estado à parte. A custosa campanha pelos territórios de sete populosas missões a leste do Rio Uruguai daria lugar a uma violenta batalha de panfletos, que ganharia escala europeia, tendo os jesuítas como personagens centrais.

Com a Europa em polvorosa, o que em princípio interessava a Lisboa era manter a neutralidade que D. João V adotara depois do desfecho da Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1713). Neutralidade algo enganosa, por repousar sobre os princípios do Tratado de Methuen (1703), que previa uma espécie de troca de tecidos britânicos por vinhos portugueses. De qualquer modo, ao longo dos anos, com os proventos do ouro das Minas Gerais, tinha sido possível a Portugal o exercício de alguma firmeza na sua relação com a Inglaterra. E logo no início do segundo semestre de 1756, alarmado com o quadro existente, o ministério de D. José chegou a ensaiar uma mudança estratégica, remetendo uma embaixada a Versalhes. Seu objetivo era tentar estabelecer com a França um tratado comercial e uma aliança militar defensiva que dissuadisse qualquer aventura de outras potências.

A iniciativa esbarrou no ambiente encontrado na Corte francesa. Os secretários de Luís XV andavam exultantes com os sucessos das primeiras campanhas e pareciam mais empenhados em conseguir integrar a Coroa espanhola à sua rede de alianças continentais. Além disso, tanto no seio da família real como no círculo mais próximo da favorita do rei, Madame de Pompadour, ocorria uma notória ascensão de partidários da Companhia de Jesus, que desenvolviam contatos com o suspeito infante D. Pedro, irmão mais novo do rei português, e sua tia D. Maria Bárbara. A tentativa de garantir maior segurança para os domínios de D. José tinha de ser relançada em outras bases. E elas viriam a ser bases britânicas.

Em meados de 1757, Martinho de Melo e Castro, enviado extraordinário na Corte de Saint James, foi instruído a alertar o ministério britânico e os negociantes da Bolsa de Londres sobre os perigos que poderiam advir de uma conjugação de interesses entre os jesuítas e as Coroas ligadas à dinastia dos Bourbon (especialmente França e Espanha). Logo nos meses seguintes, multiplicaram-se as trocas de ideias a esse respeito com o secretário de Estado William Pitt e o próprio monarca, Jorge II. Daí em diante, todas as medidas tomadas contra a Companhia de Jesus passaram a ser acolhidas pelos ingleses com enorme entusiasmo. O fluxo de panfletos portugueses antijesuíticos em direção à Inglaterra atendeu a uma forte e generalizada demanda local.

Tamanho interesse pelo assunto tinha razão de ser. Estava viva na memória dos britânicos a aguerrida campanha missionária jesuítica em seu território, e era enorme a importância simbólica das sucessivas derrotas que lhe tinham sido impostas pelo Anglicanismo. Entre elas, a mais celebrada era a de 1605, quando se evitara a explosão de uma grande quantidade de pólvora acondicionada debaixo das Casas do Parlamento com a intenção de matar o monarca, Jaime I, e todos os membros da Assembleia. Reza o processo que o complô fora inspirado pelas doutrinas dos sacerdotes da Companhia, que aceitavam o assassinato de soberanos desde que fossem despóticos ou ilegítimos. Poucas entidades invocavam de modo tão claro, para os ingleses da época, a traição, a perfídia e a maldade.

As acusações portuguesas contra os jesuítas foram o cardápio de um jantar oferecido por Lord Mansfield, responsável pelo sistema de Justiça da Inglaterra e do País de Gales, ao enviado português Martinho de Melo e Castro, em maio de 1758. Durante o encontro, o dono da casa quis saber se esses padres continuavam a ser tolerados nos territórios do Maranhão e do Paraguai. Algo surpreso, Martinho de Melo e Castro confessou não ter recebido qualquer informação que o levasse a pensar o contrário. O britânico foi taxativo: “Estou certo de que jamais deixarão o país em sossego. Semelhante casta de gente é como as ervas de ruim qualidade: se não se lhes arrancam as raízes, por mais que se lhes corte a rama, sempre produzem, e ordinariamente com mais força, que a antecedente”.

Cerca de um ano depois, o mesmo Martinho de Melo e Castro receberia o encargo de comunicar oficialmente ao rei Jorge II a intenção de expulsar todos os padres jesuítas dos domínios portugueses, com um expresso pedido de apoio militar à Inglaterra, para o caso de alguma outra potência se opor à medida. As instruções enviadas acumulavam uma longa série de argumentos, adiantando, inclusive, que se o assunto não fosse tratado com celeridade, brevemente “nem haveria Brasil para Portugal, nem em Portugal e no Brasil comércio que fosse de alguma consequência para Inglaterra”. Mas nem era preciso apresentar essa ameaça com todas as letras. Confiante nas novas feições que a guerra assumia na Europa e, sobretudo, no Canadá e na Índia – onde a França colhia insucessos –, Jorge II assegurou seu apoio irrestrito à decisão d’el-rei D. José, e ainda decidiu sugerir que os sacerdotes aprisionados fossem mantidos sob cerrada vigilância, para que as suas calúnias não engrossassem o caudal dos libelos antiportugueses.

No mais, o rei da Inglaterra podia dormir tranquilo: pelo menos a médio prazo, as “ervas daninhas” que seu povo tanto combatera estavam feridas de morte.

Tiago C. P. dos Reis Miranda é pesquisador do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa, autor da tese de doutoramento “A Inocência da Razão: António Freire de Andrade Encerrabodes (1699-1783)” (USP, 1998) e da dissertação “‘Ervas de Ruim Qualidade’: a expulsão da Companhia de Jesus e a aliança anglo-portuguesa (1750-1763)” (USP, 1991).

Saiba Mais - Bibliografia

AZEVEDO, João Lúcio de. O Marquês de Pombal e a sua época, [1ª ed., 1909], prefácio de Francisco José Calazans Falcon. São Paulo: Alameda, 2004.

MONTEIRO, Nuno Gonçalo. D. José. Na sombra de Pombal. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006.
NOVAIS, Fernando A. “Política de neutralidade”, in Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), 2ª ed. São Paulo: Editora Hucitec, 1983.


Especial expulsão dos jesuítas - Bons negócios


Empreendedores de sucesso, os jesuítas acumularam um enorme patrimônio no Brasil


Paulo de Assunção




“Desnaturalizados, proscritos e exterminados” do território português e de todas as terras de além-mar. Foi com estes termos que o rei D. José I determinou o banimento dos religiosos da Companhia de Jesus na lei promulgada em 3 de setembro de 1759. A decisão rompia com mais de dois séculos de união entre os jesuítas e a Coroa portuguesa, marcados por uma tumultuada relação de interesses. 

No decorrer de sua permanência em terras brasileiras, o poder espiritual dos jesuítas também se transformou em poder material. O acúmulo de propriedades foi prática constante e crescente entre aqueles religiosos, fosse por meio de compra ou de herança testamentária. Além das igrejas, de colégios e orfanatos, seus bens incluíam prédios, fazendas e engenhos, ocupando boa parte do tempo dos missionários em atividades administrativas e empreendedoras. Precisavam se preocupar com o pagamento de salários e débitos, custos de produção, taxas de rentabilidade e gerenciamento da mão de obra escrava. Possuíam grandes fazendas no Rio de Janeiro, no Espírito Santo, no Pará e no Maranhão. Mas a maior concentração de bens estava no Nordeste, por conta da exploração da cana-de-açúcar, base da economia colonial no período. 

Eram tantas as propriedades em seu nome que os jesuítas constantemente se envolviam em litígios e conflitos com os donos de terrenos vizinhos. Reclamava-se de que eram minuciosos demais nas disputas pelos limites de suas propriedades, hábito agravado pelo incômodo discurso em defesa da liberdade dos índios.

Ao concentrar influência religiosa, política e econômica, a ordem angariou inimizades e passou a ser vista como uma ameaça pelos governantes locais. Tanto que o ato de sua expulsão alegava o objetivo de preservar a autoridade real e a soberania do Estado lusitano. Segundo a Coroa, era uma ação em defesa da segurança da coletividade, para “conservar a tranquilidade e interesses dos fiéis vassalos”. A lei que os mandou embora foi recebida como boa notícia por muitos. Ainda mais porque transferia para a Coroa portuguesa as muitas riquezas que estavam em seu poder.

O rei determinava o confisco geral de todos os bens, rendas ordinárias, pensões e qualquer outra atividade dos religiosos em toda a extensão das terras coloniais. Assim que eles se retiraram, começou o trabalho de inventariar e descrever todas as suas propriedades. Seus próprios livros e rol de contas, onde registravam em detalhes as transações financeiras, ajudaram nesse trabalho. Relatórios quantificavam a produção das fazendas, o montante obtido com as vendas, as mercadorias compradas, os valores gastos com a manutenção da propriedade e para o andamento dos negócios – como a reposição dos instrumentos de produção, o tratamento das doenças dos escravos e os fretes dos produtos que iam da Colônia para o reino e vice-versa. As terras jesuíticas fabricavam pães de açúcar, arroz, fumo, especiarias e muitos outros produtos. Eles também criavam gado, principalmente nas propriedades do Rio de Janeiro, onde alguns rebanhos chegaram a ter de duas mil a três mil cabeças.

O resultado das atividades econômicas dos inacianos, bem como as doações em dinheiro feitas por fiéis, gerou ainda recursos para a aquisição de imóveis no meio urbano. No Recife, o Colégio Jesuítico era proprietário de cerca de 30 “prédios rústicos”, sítios localizados nas adjacências da cidade. Depois de inventariados, esses imóveis foram vendidos em hastas (ofertas públicas), gerando uma receita de quase 9,5 contos de réis – valor extremamente elevado para a época, equivalente ao patrimônio das famílias mais abastadas.

No caso do confisco dos bens do Colégio do Recife, realizado entre 1759 e 1763, só com a venda de bens móveis foram arrecadados mais de três contos de réis – entre botica, mobiliário, gado das fazendas, ferragens, roupas, livros das bibliotecas, couros, açúcar, escravos e miudezas. Passou-se então à venda dos bens imóveis do Colégio: o engenho de açúcar de Nossa Senhora da Luz, a Fazenda de Nossa Senhora do Rosário da Barreta, outras fazendas de criação de gado e prédios rústicos e urbanos renderam à Coroa aproximadamente 60 contos de réis.

As posses do Colégio da Bahia também se estendiam para além de Salvador. Entre as propriedades estavam os engenhos de açúcar de Pitanga e de Cotegipe, ambos com fábricas, casas, escravatura, gado e terras, e mais sítios e fazendas em diferentes localidades, além de 50 casas e lojas espalhadas pela região. Patrimônio significativo que se formara com o decorrer dos anos e que fornecia recursos polpudos aos jesuítas: somente dos aluguéis das casas na cidade, eles obtinham quase nove contos de réis. 

À medida que os bens dos jesuítas eram conhecidos, confirmava-se o descompasso entre os interesses do Estado português e os dos religiosos, que nos últimos anos assumira contornos mais evidentes. Verificando o declínio da produção açucareira e as inconstâncias do mercado europeu, os jesuítas vinham direcionando suas ações para outros investimentos que permitissem retorno mais seguro e estável – como os empréstimos de dinheiro a particulares e o aluguel de suas propriedades. O arrendamento de terras e as casas de aluguel compunham a maior parte da renda dos inacianos no momento da expulsão. 

Não se pode dizer que os engenhos fossem mau negócio. Apesar das flutuações da indústria açucareira, a atividade dava lucro, ainda mais por contar com privilégios e favorecimentos reais, como isenções de impostos. Mas, ao se afastarem da base econômica da Colônia, o que os jesuítas priorizavam para suas riquezas era uma rentabilidade maior, mais fácil e mais rápida. Comparados aos proprietários de engenhos, os religiosos adotavam práticas administrativas bem mais eficazes. 

O sumário dos rendimentos obtidos com a venda de seus bens demonstra que a ordem havia administrado seu patrimônio de maneira eficiente desde o século XVII, permitindo que ele crescesse significativamente. A diversidade dos bens e dos investimentos é prova de que se adaptaram às economias regionais, sempre fiéis à sua missão: quanto maior a rentabilidade, maior a glória de Deus. 

Paulo de Assunção é professor da Universidade São Judas Tadeu e da Anhanguera Educacional-Faenac e autor de Negócios Jesuíticos: o cotidiano da administração dos bens divinos (Edusp, 2004).

Saiba Mais - Bibliografia

COUTO, Jorge. O colégio jesuítico do Recife e o destino do seu patrimônio (1759-1777). Tese de Mestrado em História Moderna de Portugal apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1990.

SCHWARTZ, Stuart B. Segredos Internos - Engenhos e Escravos na Sociedade Colonial 1550-1835. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

LEITE, Serafim, S.J.  História da Companhia de Jesus no Brasil. Lisboa/Rio de Janeiro: Portugália/INL, 1938-1949.


Aleijadinho

Nas pistas do barroco


Aleijadinho deixou marcas nas ruas, nas igrejas e no imaginário dos católicos


Vivi Fernandes de Lima


Um risco na madeira pode passar despercebido para muitos desavisados. Mas quando ele inscreve as letras “AFL” na peça de um altar mineiro, causa surpresa. Foi assim que restauradores que trabalhavam na Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Nova Lima, reagiram quando se depararam com uma novidade que estava escondida desde o século XVIII: as iniciais de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, no fundo da parte interna do sacrário de um retábulo (altar lateral). A coordenadora do projeto de restauração realizado pela Escola de Belas Artes da UFMG, Bethania Veloso, explica o motivo da surpresa: “Eu nunca soube de inscrições desse tipo na obra de Aleijadinho”.


A descoberta é mais um elemento que aguça a curiosidade de quem contempla a obra, mas, infelizmente, não poderá ser observada pelos visitantes. “É uma inscrição feita na parte interna de um trabalho de Aleijadinho, ou seja, não foi feita para ser vista pelo público”, afirma Bethania. A recuperação, finalizada na última semana de novembro, inclui três retábulos de oito metros de altura e o altar-mor, com 15 metros. Trata-se de um dos maiores conjuntos de esculturas em madeira de Aleijadinho, o mestre do barroco brasileiro. Enquanto visitam a igreja, fiéis contemplam as imagens, chegando a tocá-las, como quem faz um contato direto com Deus. A cena não é um caso isolado; ela é repetida em outras cidades que têm obras de Antônio Francisco Lisboa, como Ouro Preto, Mariana, Tiradentes, Congonhas, Santa Rita Durão, Barão de Cocais, Caeté, Sabará, São João Del Rei, Catas Altas, Santa Luzia e Raposos. 

Em Ouro Preto, o pintor e pesquisador José Efigênio Pinto Coelho é capaz de sintetizar a importância da obra do artífice em sua vida: “Aleijadinho fez a cara do meu Deus”. Mais do que confirmar a combinação entre arte e religiosidade, seu depoimento mostra o quanto a obra de seu conterrâneo famoso faz parte da cultura da cidade. “É para aquele Cristo com olhos puxados que eu ajoelho e rezo. Quando fui à Europa, vi que o meu Deus não tem a cara das esculturas que estão naquelas igrejas. Não tenho fé naquele barbudão europeu com cara de visigodo. O meu Deus tem cara de barroco mineiro”, confessa Efigênio. 

O pintor pesquisa o legado de Aleijadinho há mais de 40 anos. Ainda criança, como a maioria dos meninos ouropretanos, sabia da importância do artista pelo valor que turistas davam a suas peças. Hoje não é diferente: a popularidade do escultor continua movimentando as cidades históricas mineiras. Ouro Preto, onde a atenção dos visitantes se divide entre Aleijadinho e inconfidentes, recebe cerca de 500 mil turistas por ano. Em Congonhas, onde estão os 12 profetas e os Passos da Paixão, a média é de 64 mil. Este número deve aumentar em 2012, ano previsto para a inauguração do Memorial Congonhas – Centro de Referência do Barroco e Estudos da Pedra, projeto lançado em novembro pelo Iphan, pela prefeitura e pela Unesco. 

O artista barroco é uma referência para estrangeiros e moradores, em especial para artesãos e guias de turismo. Gabriel William Lopes Silva, o Biel, 23 anos, faz esculturas em cedro. Nas paredes de seu ateliê, em Mariana, estão peças que remetem às de Aleijadinho. “Tenho que ter sempre esses anjinhos. Os turistas procuram muito”, diz o artesão, que cobra R$ 1.200 por três anjos emoldurados. Na mesma cidade, o guia de turismo Márcio Bento Alves, 53 anos, exerce a profissão desde os 10 anos. Criou seus cinco filhos com o que recebe de turistas que vão à cidade procurando pelas obras de Aleijadinho. Na alta temporada, chega a tirar uma renda mensal em torno de R$ 3.500,00.

A feira de artesanato de Ouro Preto tem movimento todos os dias. Miniaturas de igrejas, anjos e porta-retratos são feitos em pedra-sabão, matéria-prima popularizada por Aleijadinho. Enquanto atendem os fregueses, os artesãos manuseiam o formão com desenvoltura, um ofício que é passado de geração em geração. Para o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, a tradição do entalhe na madeira e na pedra-sabão pode ser associada à raiz barroca de Minas Gerais. “O artista mineiro tem sempre alguma referência barroca que alimenta seu trabalho. Aqui, especialmente nesse universo da arte em pedra-sabão, Aleijadinho é uma baliza”, diz o prefeito.

Em pedra ou em cedro, a produção do artífice resultou em projetos arquitetônicos, esculturas devocionais e ornamentos que apresentam o que os pesquisadores chamam de estilemas, ou seja, sinais que se repetem nas obras. Olhos amendoados, cabelos cacheados, nariz estreito, fino e longo e boca entreaberta são algumas dessas marcas. O pesquisador Márcio Jardim, autor de Aleijadinho – Catálogo geral da obra, relaciona a existência de 27 sinais. 
                O desenvolvimento artístico do escultor pode ser classificado em fases diferentes de sua vida. Jardim divide suas etapas produtivas em cinco: mocidade (1755 a 1760), maturidade inicial (1761 a 1770), maturidade média (1771 a 1780), maturidade plena (1781 a 1790) e máxima, ou fase de Congonhas (1791 a 1812). Já Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, professora de História e Teoria da Arte da UFRJ e conselheira consultiva do Iphan, faz a divisão em três etapas: as obras iniciais integrariam o período entre 1760 e 1774, a maturidade iria até cerca de 1790 e uma terceira fase, até 1812. 

A diferença de pontos de vista entre pesquisadores dedicados ao tema é uma amostra do quanto é difícil reconhecer a autoria das obras. Assim como outros artífices de sua geração, Antônio Francisco Lisboa não assinava seus trabalhos. Myriam Andrade garante que atribuições a Aleijadinho e a outros artistas de épocas passadas exige conhecimentos específicos – análises técnicas, iconográfica e formal – que são dados nos cursos universitários de História da Arte. “Mas também é necessária muita prática para treinamento do olhar, o que só se consegue ao longo dos anos”, diz a especialista, co-autora de O Aleijadinho e sua oficina – Catálogo de esculturas devocionais, entre outros títulos sobre o mesmo tema.

Márcio Jardim enumera 425 obras em seus estudos. Para 2010, ele planeja lançar outro livro com mais 45 trabalhos que considera serem do mestre barroco, incluindo peças de 10 novas coleções particulares. Como a maioria das encomendas feitas a Aleijadinho não era acompanhada de recibo – ou, pelo menos, nem todos foram encontrados –, a responsabilidade dos pesquisadores aumenta. Mas esse não é o único “porém”: há quem duvide da documentação existente. “Quando há um recibo de pagamento emitido pela irmandade, por exemplo, normalmente ninguém discute. Mas esse registro pode não ser suficiente, porque naquela época, assim como hoje, havia ‘terceirização’ nas empreitadas”, diz Jardim.

Se o reconhecimento das obras já indica contradições mesmo quando há escritos da época, a vida de Aleijadinho não fica atrás nesse universo de interrogações. A começar pela data de nascimento: seu batismo, realizado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto, apresenta o ano de 1730, mas a certidão de óbito diz que foi em 1738. A paternidade também destoa: é o nome de Manoel Francisco da Costa que aparece no batismo, e não o do arquiteto Manuel Francisco Lisboa, que é popularmente reconhecido como o pai. Quanto à doença, em 1964, a Associação Médica de Minas Gerais chegou a discutir a enfermidade do artífice. Hanseníase, escorbuto, acidente vascular cerebral e sífilis foram alguns dos diagnósticos apontados. E se ele era mesmo tão doente, como conseguiu se locomover por diversas cidades mineiras? Para isso contava com escravos – “artigos” de luxo – que o carregavam. Então, por que será que ele morreu pobre? Para responder a essas perguntas, pesquisadores se embrenharam em leituras e observações de suas obras que resultaram em diversos livros. Hoje, as grandes livrarias têm em média 15 títulos sobre Aleijadinho. 

O primeiro escrito que tentou responder a essas questões foi a biografia Traços biográficos relativos ao finado Antonio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho, assinada por Rodrigo José Ferreira Bretas (1814-1866), em 1858. Publicado no Correio Oficial de Minas, de Ouro Preto, o texto foi também o ponto de partida para esclarecer a autoria das obras atribuídas a Aleijadinho. Rodrigo Melo Franco de Andrade, primeiro diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan, atual Iphan) e neto de Bretas, escreveu em 1938 sobre o tema, recorrendo a esse estudo. Seu artigo já aponta, no primeiro parágrafo, a existência de questionamentos sobre o artista: “Quando Rodrigo Bretas escrevia sobre Aleijadinho (…) não suspeitava que a autoria das obras que ele atribuía a Antônio Francisco Lisboa viesse a ser algum dia controvertida. Caso lhe ocorresse essa possibilidade, não lhe teria sido muito difícil comprovar as suas asserções, pois abundavam certamente àquele tempo os meios de que precisasse no sentido de documentá-las”.

O artigo de Melo Franco foi uma das iniciativas do Sphan para comprovar as atribuições dadas a Aleijadinho. A instituição – que também tinha Lúcio Costa como incentivador – mobilizou-se enviando assistentes técnicos às cidades mineiras. Os profissionais vasculharam arquivos de irmandades, igrejas e Câmaras, encontrando documentos como recibos, contratos de serviços, despesas com obras, comprovando em vários casos a autoria do artista. Numa coisa todos os pesquisadores concordam: Aleijadinho tinha uma oficina, e como todo grande artista, tinha auxiliares.

O texto de Bretas se tornou alvo de questionamentos por ocasião da criação do Sphan. O primeiro “tiro” saiu do historiador mineiro Augusto de Lima Júnior (1889-1970) – autor de diversas obras, entre elas O Aleijadinho e a arte colonial –, que combatia as iniciativas de Melo Franco para a preservação das obras e proteção dos documentos históricos referentes a Aleijadinho. Os bastidores das discussões entre os dois intelectuais são confirmados pelo prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo, que chegou a dirigir o Iphan de 1985 a 1987. Segundo ele, o desentendimento foi de natureza ideológica, com alguns traços de personalismo da parte de Lima Júnior. “Ele gostaria de ter sido diretor do Iphan. Por isso começou a atribuir a valorização de Aleijadinho a uma mera arrogância de Melo Franco, que queria valorizar a memória do avô, Rodrigo Bretas. Mas Melo Franco foi um homem de profunda acuidade na leitura de obras de arte e documentação histórica”.

O reconhecimento do artífice como gênio nacional ganhou força com o Modernismo, que buscava as raízes da cultura brasileira. O fato de Aleijadinho ter sido mulato – filho de pai português e mãe escrava – foi, para Mário de Andrade, um dos motivos apontados para o seu esquecimento. “A minha convicção é que o grande arquiteto mineiro foi o maior gênio artístico que o Brasil produziu até hoje. Mas por muitas fatalidades e muita incúria, o nome dele permanece vago na consciência nacional dos brasileiros”, dizia o modernista em artigo publicado em 1928. 

O dito popular “santo de casa não faz milagre” também estava presente nos argumentos de Mário de Andrade: “Só nos compreendemos quando os estranhos nos aceitam”. De fato, depois que o francês Germain Bazin publicou o livro O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil, em 1963, aumentou o interesse de colecionadores pelas obras do artista. Guiomar de Grammont, professora de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e autora do livro Aleijadinho e o aeroplano – o paraíso barroco e a construção do herói colonial, confirma esse fato: “Depois de Germain Bazin, a figura de Aleijadinho se tornou tão conhecida no mundo que todas as cidades mineiras e museus de arte colonial passaram a ter interesse em possuir uma obra desse artista”.

O livro de Guiomar foi resultado de cinco anos de pesquisa para a tese de doutorado em Literatura defendida na USP em 2002. “A maior parte dos historiadores tomou como verdade absoluta a primeira biografia (de Bretas), escrita para um concurso instituído no século XIX pelo IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro). Analisei os documentos e a biografia separadamente, tomando-a como um documento literário, dentro da concepção romântica do século XIX. A vida que o personagem teria tido, porém, segundo os documentos históricos, é muito mais simples e prosaica”, diz a autora.

Suas constatações provocaram incômodos a historiadores de arte colonial, como a própria escritora ressalta: “Eles haviam passado a vida toda estudando o tema a partir de conceitos como originalidade, estilo e autoria, que o livro mostra serem apenas concepções históricas, passíveis de mudança no tempo e no espaço, e não essências universais”. 

Frederico Birchal de Magalhães Gomes não é historiador, e sim engenheiro aposentado. Mas como cresceu nas cidades de Ouro Preto e Mariana, ficou surpreso com o estudo de Guiomar, que afirma ser a biografia de Bretas “um texto para agradar ao IHGB”, contendo aspectos fantasiosos. “O Iphan republicou a biografia acrescida de 83 notas que basicamente comprovam a veracidade da maioria das informações de Bretas. Foi esta pesquisa que deu grande credibilidade à obra, mostrando que ele foi um pesquisador consciencioso na consulta aos documentos disponíveis da época”, diz Gomes.

A autora considera um absurdo Aleijadinho ter executado todas as obras que lhe foram atribuídas: “Como sempre, é no texto de Rodrigo Ferreira Bretas que o exagero principia”. Com relação a essa questão, Márcio Jardim é enfático: “É preciso levar em conta que Aleijadinho viveu 84 anos e era mulato. Ele não tinha acesso a serviço público. Se ele ficasse um dia sem trabalhar, não recebia por aquele dia. Também não havia aposentadoria, ele tinha que trabalhar o tempo todo. Ele e seus auxiliares”.

As polêmicas em torno da vida e da obra de Aleijadinho não param nestas páginas. Cada olhar para uma escultura pode gerar novas perguntas. Por que será que aquele anjo do frontispício da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto é careca? Turistas, moradores e esta repórter perguntam, mas os livros não respondem. Ainda.

Para amenizar as polêmicas, é possível recorrer àquele que parece ter sido o ponto de partida de todas essas discussões, o texto de Bretas: “Desde que um indivíduo qualquer se torna célebre e admirável em qualquer gênero, há quem, amante do maravilhoso, exagere indefinidamente o que nele há de extraordinário, e das exagerações que se vão sucedendo e acumulando chega-se a compor finalmente uma entidade verdadeiramente ideal. É isto o que, pode-se dizê-lo, até certo ponto aconteceu a Antônio Francisco”.

Saiba Mais - Bibliografia
BANDEIRA, Manuel. Guia de Ouro Preto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.

Saiba Mais - Internet
Reprodução da primeira biografia de Aleijadinho, escrita por Rodrigo José Ferreira Bretãs, em www.siaapm.cultura.mg.gov.br


sábado, 21 de maio de 2016

Os Bandeirantes : No mato sem cachorro

Atravessar sertões inóspitos, em guerra contra os índios, era um verdadeiro martírio para bandeirantes descalços, mal equipados e famintos

Glória Kok

Altivos, imponentes, longas botas, chapéu e armas vistosas. Esqueça a imagem típica dos bandeirantes difundida pelos livros didáticos. A realidade era bem outra: as tropas caminhavam descalças por extensos territórios, sujeitas a todo tipo de desconforto, à mercê dos ataques de índios e de animais, fustigadas pela fome.

Antes de virar herói – invenção da elite no início da República, para enaltecer a capacidade de liderança dos paulistas –, o bandeirante foi o protagonista de uma colonização árdua e violenta, que durante mais de dois séculos desenvolveu uma cultura própria, bem distante dos padrões europeus.

Desde o século XVI até as primeiras décadas do XVIII, expedições partiram em busca de metais preciosos e de índios para serem vendidos como escravos nas plantações que abasteciam a Colônia. Essas incursões ganharam o nome de “bandeiras” – possivelmente por causa do costume tupiniquim de levantar uma bandeira em sinal de guerra.

O sucesso das empreitadas dependia do “cabo da tropa”, ou “capitão do arraial”, sertanista experiente que tinha poder absoluto sobre seus subordinados. O cabo reunia na tropa seus filhos (mesmo ainda adolescentes), parentes e agregados para auxiliá-lo no comando, fazendo das bandeiras um negócio eminentemente familiar. 

O capelão era outra figura obrigatória, encarregado de dar assistência espiritual à tropa. Grupos maiores contavam também com o alferes-mor, responsável pela partilha dos índios capturados, e o escrivão. Mulheres índias ou mestiças (temericó) acompanhavam os bandeirantes pelo sertão na condição de escravas.

No entanto, a maioria dos integrantes eram escravos indígenas, geralmente guaranis ou carijós, que formavam tropas auxiliares encarregadas de combater e capturar índios no sertão. Vale dizer que, em meados do século XVII, 83% da população da vila de São Paulo era formada por índios. Os mamelucos, descendentes de pai branco e mãe índia, muitas vezes atuavam como guias e intérpretes, pois falavam a “língua geral” (tupi) e transitavam entre o mundo indígena e o português. Serviam também de “isca” para as capturas: vestidos com batinas pretas e cabelos cortados em tonsuras, passavam-se por jesuítas e assim escravizavam os índios sem maiores resistências.  

Conhecimentos herdados pelos mamelucos eram cruciais para a sobrevivência no sertão: orientação e observação dos movimentos do Sol, dos astros e dos rastros, técnicas de caça e pesca, construção de embarcações e mareagem pelos rios, sistemas de comunicação por meio do fogo e da sinalização com gravetos, além da classificação da flora e da fauna, fundamental para a seleção de alimentos, bebidas e medicamentos. 

Os bandeirantes utilizavam vários tipos de armas: espadas, adagas, lanças, facas, terçados e alfanjes, além das de fogo (espingardas, bacamartes, mosquetes, arcabuzes, pistolas e escopetas). Na hora do combate, contudo, preferiam recorrer aos arcos e flechas indígenas, pois as armas de fogo geralmente enferrujavam e eram de difícil manejo no calor das batalhas. Para se defender das flechas inimigas, usavam gibão de couro de anta recheado de algodão.

Um meio eficiente de seduzir os índios era oferecer-lhes suprimentos como anzóis, contas, facas, espelhos, tesouras e aguardentes de cana. O escambo, prática tradicional das sociedades indígenas, foi empregado na primeira etapa das bandeiras com o intuito de transformar, por meio “amigável”, os nativos em escravos.  

Já no final do século XVI, a crescente demanda de mão-de-obra das grandes fazendas agrícolas do planalto motiva expedições para sertões mais distantes. A primeira bandeira de grande porte saiu de São Paulo em 1628, sob o comando do famoso Antônio Raposo Tavares (1598-1658), com cerca de 900 paulistas e dois mil guerreiros tupis. Raposo se estabeleceu num arraial na entrada do território de Guairá, e dali comandou violentos ataques às aldeias e missões espanholas daquela região, e também em Tape (atual Rio Grande do Sul) e Itatim (atual Mato Grosso do Sul), nas proximidades da bacia do Rio da Prata. Conta o jesuíta Ruiz de Montoya que os paulistas destruíram onze missões com populações de três mil a cinco mil índios – o que resulta num total de 33 mil a 55 mil índios capturados. Para Luiz Felipe de Alencastro, na zona de Guairá e Tape as bandeiras capturaram aproximadamente 100 mil indígenas, em uma das “operações escravistas mais predatórias da história moderna”. 

Em 1641, a Batalha no Rio Mbororé, afluente do Uruguai, marcou o fim das expedições paulistas às missões espanholas. A bandeira de Jerônimo Pedroso de Barros, com 350 bandeirantes e 600 índios tupis em 130 canoas, foi surpreendida e derrotada, numa batalha de seis dias, por 300 índios guaranis em 70 canoas, armados com arcabuzes e arcos da Missão de São Francisco Xavier (atual Argentina). Depois dessa derrota, os bandeirantes mudaram de rumo e passaram a capturar índios na região Centro-Oeste.

Suas condições de vida eram precárias. Os mantimentos eram apenas cabaças de sal e pães de “farinha de guerra”, feitos de mandioca ou de milho. Completavam seu sustento por meio da caça e da pesca, e incorporavam ao cardápio alimentos improvisados: frutas silvestres, pinhão, raízes, tubérculos, palmitos, mel-de-pau, ovos de jabuti e os “paus de digestão”, ou seja, grelos de samambaia e suas variações. Outra fonte de alimento eram as roças indígenas de milho, feijão e mandioca, geralmente saqueadas e destruídas como prova da supremacia dos bandeirantes. 

Apesar disso, a fome era quase sempre uma companheira de viagem. Da tropa do capitão Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, perdida numa grande chapada, morreram vítimas da fome mais de 40 pessoas. Luís Barbalho Bezerra, comandante da bandeira formada para combater os holandeses na Bahia, relatou em seu regresso que a fome foi tanta que os paulistas comeram os poucos cavalos que havia, além de couros, raízes de bananeiras e muitas imundícies. Depois de oito meses de cativeiro entre os índios paiaguás do Rio Paraguai, João Martins Claro, paulista, e Manuel Furtado, do Rio de Janeiro, fugiram nus, sem nada de ferro, e sobreviveram durante alguns meses do ano de 1731 comendo somente frutas, cocos, raízes e gafanhotos. 

Aliás, o governador da capitania de São Paulo, D. Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, impressionou-se com o rotineiro costume entre a gente paulista de comer “bichos imundos e coisas asquerosas”, como o içá torrado (formiga saúva fêmea). Também o bicho-de-taquara, apreciado pelos índios como um manjar, foi largamente consumido pela população colonial. Uns comparavam-no aos miolos de boi, outros, à manteiga fresca. Para matar a sede, apelava-se para as raízes vegetais, como a de umbuzeiro, mandacarus, cipós, taquaruçus e gravatás. 

Animais selvagens e peçonhentos causavam sérios estragos nas tropas. Jararacas, cascavéis, corais e sucuris infundiam verdadeiro horror aos sertanistas. A onça pintada (jaguar) e a onça parda (suçuarana) atacavam viajantes inexperientes, que se descuidavam pelos caminhos do sertão. O maior martírio, entretanto, era resistir às investidas dos mosquitos, responsáveis por incontáveis noites de insônia. Bichos-de-pé, formigas e carrapatos infestavam o cotidiano dos bandeirantes. A rotina tornava-se ainda mais miserável pelo constante temor de um súbito ataque indígena. A ponto de os integrantes da bandeira do alferes José Peixoto da Silva Braga se virem obrigados a dormir em ilhas, enterrados na areia. 

As bandeiras foram a principal atividade da economia de São Paulo até a década de 1690, quando foi descoberto o ouro na atual região de Minas Gerais. Usurparam os territórios indígenas, capturaram milhares de índios, arrasaram aldeias, destruíram etnias e favoreceram a difusão de epidemias. Muitos bandeirantes não voltaram ao planalto – como os primeiros povoadores de Minas Gerais, os que seguiram para o vale do São Francisco e os que foram combater os tapuias (índios não-tupis) e quilombolas no Nordeste.  

Na história da São Paulo colonial, índios de várias etnias, na condição de escravos, contribuíram para a formação de uma sociedade baseada em saberes, técnicas e práticas nativas. A língua geral, por exemplo, foi falada pela maioria da população de São Paulo até 1759, quando acabou proibida pelas autoridades portuguesas. Mas a consolidação de uma elite paulista, enriquecida pela agricultura e pelo comércio a partir do século XVIII, marginalizou as populações indígenas e rompeu com os padrões culturais dos ameríndios. Nesse processo de conquista, os paulistas tornaram-se grandes proprietários de terras, e estas ficaram sujeitas, em definitivo, à soberania da Coroa portuguesa. A verdadeira história dos bandeirantes ia ficando para trás, assim como seu rastro de destruição.

Glória Kok é pesquisadora do Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI), na UNICAMP, e autora do livro O sertão itinerante: expedições da capitania de São Paulo no século XVIII (Hucitec, 2004).

Saiba Mais - Bibliografia:

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras, 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 
KOK, Glória. O sertão itinerante: expedições da capitania de São Paulo no século XVIII. São Paulo: Fapesp, Hucitec, 2004.
MACHADO, Alcântara. Vida e morte do bandeirante. Introdução de Sérgio Milliet. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980.
MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.


Fonte:http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/no-mato-sem-cachorro

domingo, 8 de maio de 2016

Mães escravas, mães “de cor”*

As mães escravas, na sua grande maioria amantes passageiras, não tinham
seus nomes lembrados e, estando ausentes da documentação da época colonial, não permitem que sondemos se foram lembradas em vida por seus senhores. Quanto a seus filhos,
não se sabe tampouco se, em algum momento, foram recompensados ou, se concebidos sob coerção e violência, coube-lhes apenas o esquecimento por terem nascido escravos.

O que se pode supor é que tais maternidades se engendravam a contragosto, por apavorado constrangimento; mas é possível também que existissem certas
retribuições por serviços sexuais. Os benefícios de tantos sacrifícios eram bem
poucos. Mais além do sofrimento imposto pela condição mesma do escravismo, as gratificações simbólicas que uma mãe negra poderia auferir equivalem a um triste esgar: o status de ser concubina de um homem branco, os filhos de pele mais clara
e, por fim, a possibilidade mais concreta de liberdade. Luís Mott cita o caso da escrava Maria do Egito, mulata de trinta anos, pertencente a Evaristo José Santana que assim respondeu ao libelo da devassa efetuada no sul da Bahia em 1813: “sob promessa de se libertar deixou-se levar de sua virgindade por amor único de gozar esse bem
maior […] a Liberdade”. Passada a carta de alforria, seu senhor “a teve por barregã
por mais de 14 anos”. Para cada concubina libertada, várias mulheres eram violentadas.

A maternidade de escravas acentuava o caráter de exploração física que sofreram tais mulheres. Seu sexo era utilizado para o desfrute e o prazer, mas também para a reprodução, pois os filhos de escravas não deixavam de significar um investimento para os seus senhores. Ao queixar-se ao juiz ordinário em 1799,
porque seu marido fugira com quatro escravos, Maria Leite de Almeida dá a medida do que a mãe escrava podia significar no contexto colonial. Depois de explicar que o cônjuge a ameaçara “com uma faca de ponta para me tirar a vida, por causa de andar concubinado com uma escrava de que já tem um filho”, ela afirmava: “o excesso que faz o suplicado para lhe entregarem os escravos, dizendo que não tem quem o sirva quando nem ele nem seus progenitores nunca possuíram um escravo, e se lhe
derem a mãe de seu filho, ficará tão satisfeito que nem se lembrará que é casado”.

Estas eram as relações feitas de prazer e serviços e que, quem sabe, incluíam afeto
por ocasião das gestações.
A partir do século XIX, mães negras foram alvo de uma política natalista à base
de um discurso para fazê-las desejar a maternidade. J. M. Imbert, médico francês que escreve aos fazendeiros brasileiros sobre como tratar esses “indispensáveis ao trabalho da terra”, sugeria um prêmio para aquelas que “levassem com felicidade a
cabo sua gravidez”, repetindo as admoestações de Fénelon e Raynal, cujas diretrizes encontraram receptividade entre os planteurs antilhanos no século XVIII.

No quadro de solidão e abandono em que vivia grande parte das mulheres na
Colônia, os filhos eram o que, muitas vezes, de mais valor sobrava para as mulheres que tentavam escapar de uniões incertas. Uma senhora da freguesia de Santo Amaro,
São Paulo, fora depositada em casa de seus parentes “apenas com seu filho menorde ano e meio chamado Salvador, e unicamente com a roupa ordinária e caseira do
corpo”

A solidão habitava não apenas o interior de lares, mas também pairava como uma
ameaça de maridos coléricos que, não satisfeitos em terem abandonado suas esposas,
queriam interromper seus vínculos com a comunidade, e, para tanto, atacavam a
sua reputação. Foi o caso sucedido em Guaratinguetá, 1775, em que Ana Maria da
Assunção alegava sobre o marido, que embora sempre com ele tivesse feito

vida marital e dele tem três filhos e sempre o amou e serviu com afeto e obrigação,
[…] o dito réu não só dá má vida e maltrata a dita autora, mas também a desacredita
publicamente, dizendo que os filhos que dela tem não são seus filhos, culpando outras
pessoas injustamente e sendo a autora honesta e grave e gente branca e incapaz de cometer semelhantes calúnias.

As “semelhantes calúnias” indicam o alto índice de ilegitimidade encontrado
entre mulheres de cor e evidentes nas listas de população e nos processos eclesiásticos. Invocados por Ana Maria da Anunciação, que se dizia “grave e honesta”, portanto gente branca, os filhos de parceiros ocasionais estigmatizavam-se como coisa de gente-que-não-era-branca. E, portanto, nem grave nem honesta. Preconceitos sociais e raciais traçavam a geografia de limites entre maternidades de segmentos
diversos, despertando um certo estranhamento no olhar de mulheres que viviam o mesmo processo biológico, mas avaliavam-se pelas práticas e pelo cenário em queasuas maternidades eram vivenciadas.

 

Texto de Mary del Priore. Baseado em “Ao Sul do Corpo”, Editora José Olympio, 1993.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Inconfidência Baiana: A revolução cruza o Atlântico

Luiz Carlos Villalta
Ilustração de João Teófilo
Frouxo, inepto e de poucas realizações. A passagem de D. Fernando José Portugal e Castro pelo governo da Bahia foi recheada de críticas. Ele não agia com prevenção e não desenvolvia a contento as funções repressivas que lhe cabiam. Não conseguia refrear as rebeldias dos escravos nem a quebra da disciplina entre os militares, com quem agia como contemporizador. Nas tropas, reinavam a dissolução dos costumes e o desrespeito. Na administração da justiça, atuava em consonância com os interesses dos desembargadores, aos quais sempre defendera. Toda a sua inércia, enfim, abriu caminho para a propagação das ideias revolucionárias francesas na região.
D. Fernando foi o 50º governador da Bahia. Nasceu em 1753 e faleceu no ano de 1817, já como Marquês de Aguiar, no Rio de Janeiro. Aristocrata aparentado com D. Maria I, ocupou vários cargos além do governo baiano. Antes de chegar ao Brasil, foi membro da Relação do Porto e, depois, Desembargador da Relação de Lisboa. Entre 1801 e 1806 foi Vice-Rei do Brasil. No ano seguinte, presidiu o Conselho Ultramarino. E em 1811 esteve à frente do Real Erário. Ocupou ainda os Ministérios do Reino e da Guerra e dos Negócios Estrangeiros no Brasil Joanino.
Sua atuação como Ministro do Reino também foi ridicularizada por Hipólito da Costa, no Correio Braziliense: era adjetivado como “relógio atrasado do governo”. À época de sua morte, o embaixador francês no Brasil, escrevendo ao ministério das relações exteriores da França, louvou sua honestidade, evidenciada na penúria financeira em que deixou sua viúva e nas dificuldades para custear seu enterro.
Em 1792, a Intendência Geral de Polícia de Lisboa, comandada por Diogo Inácio Pina Manique, identificou uma expedição francesa cujo objetivo seria “republicanizar a colônia portuguesa na América”. Uma Ordem Régia da rainha D. Maria foi enviada a D. Fernando. O documento lhe recomendava vigilância sobre o navio Le Diligent, que teria sido armado para “introduzir nas colônias estrangeiras o mesmo espírito de liberdade que” reinava na França e “dividir as forças dos soberanos do Novo Mundo”. A embarcação, que passaria pelo Rio de Janeiro e pela Bahia, trazia a bordo a Constituição francesa traduzida em espanhol e em português.
Alguns anos mais tarde, em novembro de 1796, chegava à Bahia o comandante Antoine René Larcher, de outra nau francesa, a La Preneuse. Vinha acompanhado de sua mulher, de duas filhas menores, de membros da fragata e de passageiros, dentre eles Madame Joana de Entremeuse.
O tenente Hermógenes Francisco de Aguilar Pantoja foi incumbido de vigiar Larcher, que acabou se aproximando bastante do seu vigia e da população local. Bem recebido pelo alto escalão do poder em Salvador, o comandante francês encontrou alguns jovens da elite baiana, ativos e radicais do ponto de vista político, livres das “velhas superstições” e ávidos na leitura de “livros franceses”, entusiasmados com a presença dos visitantes.
Supõe-se que, em serões secretos ocorridos na casa do farmacêutico João Ladislau Figueiredo de Melo, Larcher tenha desfiado a filosofia dos enciclopedistas e suas teorias políticas diante de pessoas como o padre e comerciante Francisco Agostinho Gomes, o médico Cipriano Barata de Almeida, o aristocrata canavieiro Inácio Siqueira Bulcão e o professor Francisco Moniz Barreto. Teria, ainda, participado de banquete e colaborado para a fundação da sociedade secretaCavaleiros da Luz, o que é colocado em dúvida por alguns historiadores. Essa movimentação escandalizou a elite local. O tenente Pantoja chegou a ser admoestado pelo governador em razão de seus excessos de entusiasmo com o visitante francês.
Larcher partiu da Bahia em janeiro de 1797. Chegando à França, submeteu à aprovação do Diretório, que então dirigia a República Francesa, um projeto de invasão de Salvador. Ele havia recolhido informações sobre as defesas da cidade, como munições e a disposição das fortificações. Afirmava existir um poderoso sentimento antiabsolutista em membros da elite local, traçando um projeto de aliança política entre luso-americanos e franceses, que contaria com a sublevação de parte da tropa aquartelada na Bahia, iniciando-se o levante. Os franceses cuidariam da proteção da Capitania até a organização eficaz do aparelho de Estado soberano em moldes republicanos, ao que se seguiria a independência. Os baianos, segundo o projeto, teriam solicitado 4 mil fuzis.
Enquanto isto, do lado de cá do Atlântico, o coronel José de Mattos Ferreira e Lucena alertava o governador baiano sobre a ocorrência de conversas sediciosas. A providência de D. Fernando foi advertir os participantes sobre os perigos que corriam, fazendo com que alguns deles saíssem de circulação. Em outra atitude tolerante, satisfez-se em chamar atenção do tenente Hermógenes Pantoja, que por isso ficou recolhido em casa e foi dado como doente.
Apesar dos burburinhos, em maio de 1798 o governador escrevia para a Corte, mostrando-se confiante na tranquilidade da situação da Capitania. Dizia que a “lição de papéis públicos” – como as gazetas inglesas, que não eram proibidas – estimularia a curiosidade de algumas pessoas, “especialmente entre a mocidade menos cordata e leve de entendimento”. Elas ficariam estimuladas a falar com “mais alguma liberdade ou leveza” sobre os acontecimentos europeus, sem que com isso se introduzissem, porém, “princípios Jacobinos” ou se dessem “ajuntamentos perniciosos”, argumentava.
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D. Fernando também esclarecia que, apenas por cautela, chamava diante de si um ou outro mancebo de que alguém lhe tivesse falado que “pensa[va] com menos instrução nos verdadeiros princípios da religião, prevenindo-os e repreendendo-os com semelhante providência, enquanto o caso não ped[iss]e outra maior”. A postura tolerante do governador comprova sua inépcia política – ou dá margem para que hoje se pense em seu possível envolvimento com a ebulição insurgente.
O governo francês refutou a proposta de invasão da Bahia. Mas não desistiu de acompanhar o que se passava na América portuguesa. Continuou a atuar para desenvolver o contrabando e semear a revolta nestas plagas – o mesmo propósito da presença anterior de Larcher pelas águas do Atlântico sul. Nessa iniciativa, a França contava com parceiros internacionais: agentes privados e com alguma cobertura da embaixada da Espanha, em Lisboa.
Em 1799, segundo o Intendente de Polícia Diogo Inácio Pina Manique, deu-se a apreensão de papéis, mercadorias contrabandeadas e cartas pertencentes ao espanhol D. Gaspar Rico, procedente do Rio de Janeiro, suspeito de contrabando. As cartas, encontradas em sua algibeira, teriam sido escritas por Madame Joana Entremeuse, que esteve entre as passageiras trazidas por Larcher a Salvador na passagem de 1796 para 1797.
Segundo Manique, Madame Joana Entremeuse “tinha entrado por duas vezes no Porto do Rio de Janeiro e da Bahia de Todos os Santos por diversas vezes”. Ela fora presa a bordo do navio Confiança assim que chegou, ficando comprovado que a embarcação era sua, “sendo simulada a Escritura de Venda que fez no Rio de Janeiro, não tendo outro motivo mais que embandeirar-se com Bandeira Portuguesa e poder continuar o giro do Comércio clandestino com as Colônias Portuguesas, como já tinha feito e repetido por diversas vezes debaixo do pretexto de Arribadas. Ou então, talvez por ser encarregada de fazer algumas indagações ou dispor os ânimos de alguns habitantes daquelas duas Cidades e ganhar amizades com algumas famílias para outros fins”. Logo, deduz-se, ela mesclava o contrabando à espionagem.
Para o Intendente de Polícia, tais suspeitos fins seriam sediciosos. O Capitão João de Souza Lobo assumiu a propriedade da embarcação apenas para, caso se encontrassem na viagem alguns navios ingleses de guerra, poder escapar de tê-la apreendida. Para evitar que os franceses pudessem apreender o Confiança, Joana Entremeuse trazia passaporte francês. Ambos, Lobo e Joana, confessaram-no às autoridades portuguesas. D. Gaspar Rico, ao vir do Rio de Janeiro no comboio, em embarcação espanhola, comunicara-se com Joana em alto-mar, indo ao seu navio. Demonstrando suas simpatias políticas, ele levava consigo uma bandeira republicana.
Na perspectiva de Pina Manique, Joana Entremeuse e Gaspar Rico eram dublês de contrabandistas e espiões-agentes revolucionários a serviço da França. Ou ao menos estariam envolvidos no comércio clandestino. Desejariam fazer negócios com a Bahia e o Rio, de olho no ouro e nos diamantes que poderiam obter, ou faziam um diagnóstico das forças que a Coroa portuguesa tinha ali, além dos ânimos dos habitantes da região. Neste caso, o propósito seria disseminar as ideias jacobinas pelas quais levavam os povos à rebelião.
Os papéis encontrados na posse de Gaspar Rico faziam referências às colônias de Espanha, mas isto seria apenas um disfarce. Assim, eles se refeririam, na verdade, às duas localidades da América portuguesa. As repetidas viagens de Entremeuse ao Brasil e a presença de comerciantes franceses em debates travados na Bahia reforçam o diagnóstico de Pina Manique acerca do caráter duplo – comercial e político – da ação de ambos.
Igual sentido tem a notícia que D. Fernando Portugal e Castro dera, antes de outubro 1798, a D. Rodrigo de Souza Coutinho a respeito do assédio de corsários franceses e suas pretensões de propagação revolucionária. Tudo isto mostra que o perigo da sedição continuava a rondar a Bahia, apesar da tímida repressão iniciada em agosto de 1798.
O governo português parecia ter plena consciência do perigo, ainda que não pudesse radiografá-lo com precisão. Enquanto isso, inversamente, o governador da Bahia o minimizava. Em junho de 1798, D. Fernando recebeu um ofício de D. Rodrigo de Souza Coutinho com uma avaliação negativa a respeito de sua gestão. O ministro do Príncipe Regente criticava a frouxidão e falta de firmeza de D. Fernando. E por conta disso, fazia prognósticos de um futuro pernicioso.
As críticas de D. Rodrigo ao baiano prosseguiram mesmo depois que o governador ordenou a investigação sobre os pasquins que foram afixados em Salvador e que ecoavam máximas claramente inspiradas na Revolução Francesa e opostas ao domínio colonial. Tais pasquins, assim, denunciavam o caráter despótico do governo monárquico e de seus ministros, classifcando o “rei” como tirano; defendiam a liberdade e a igualdade; tomavam o povo bahiense como “republicano” ; pregavam punições contra os padres regulares e seculares que se colocassem contra a liberdade; propunham aumento dos soldos; afirmavam a defesa da propriedade de mercadores, lavradores, senhores de engenho, bem como sua união com taverneiros e de brancos, pardos e pretos; propunham o confisco dos bens dos que se colocassem contra a Revolução; levantavam a bandeira da liberdade de comércio; e, por fim, classificavam como “péssimo” o “jugo reinável da Europa”. Em outubro de 1798, o mesmo D. Rodrigo noticiava ao governador que murmúrios haviam chegado a Lisboa sobre o comportamento e as ideias de figuras importantes da sociedade soteropolitana, que estariam afetadas por “abomináveis” princípios franceses.
Era o caso do padre Francisco Agostinho Gomes, que teria oferecido um banquete de carne na sexta-feira santa aos sectários dos mesmos princípios por ele seguidos. O ministro considerava que a frouxidão do governo de D. Fernando e a corrupção do Tribunal da Relação da Bahia estimulavam os poderosos a “praticarem violências e assuadas”. Temia-se que, em função da indisciplina das tropas e sua falta de subordinação, a Capitania estivesse vulnerável aos ataques de forças francesas que porventura ocorressem.
Segundo relatava D. Rodrigo, a soberana ordenara que o governador detivesse o padre e seus amigos. O governador abriu uma devassa, mas não prendeu o acusado nem seus seguidores: a investigação limitou-se a ouvir pessoas que nada sabiam, que nada diriam. A escolha das testemunhas foi, portanto, seletiva, com o objetivo de não incriminá-lo. A rainha continuou a insistir sobre a necessidade de maior firmeza do governador, manifestando o desejo de que ele descobrisse quem eram os conspiradores e reforçasse o controle sobre as tropas e o funcionamento da justiça.
Há indícios de que D. Fernando protegeu alguns homens de “melhor qualidade” durante as várias devassas feitas sob seu governo. Ele foi complacente com Francisco Agostinho Gomes e Hermógenes Pantoja. Se não Cipriano Barata de Almeida, ao menos Marcelino Antônio de Souza, não acusado de Inconfidência, mereceu sua proteção, apesar de ter recebido de D. Rodrigo de Souza Coutinho uma denúncia contra ambos.

Uma história, várias versões

Ambiguidades e matizes cercam de mistérios a Inconfidência Baiana. O perfil social dos conjurados e a circulação das ideias na sociedade baiana de fins do século XVIII têm merecido abordagens muito distintas da historiografia, havendo mesmo posição claramente opostas.
Pelo menos duas questões sobre o movimento são complexas: a participação de algumas pessoas “de condição” – como o comerciante Francisco Agostinho Gomes, o tenente Hermógenes Pantoja, o professor Muniz Barreto e o cirurgião Cipriano Barata – e, sobretudo, a maneira pela qual artesãos pobres e escravos conseguiram ter acesso às ideias que seus depoimentos e os próprios panfletos demonstram.
Numa ponta da historiografia, está Kátia de Queiros Mattoso, para quem o extremo da sociedade baiana – isto é, a aristocracia local – esteve à margem do movimento, cujos protagonistas seriam homens pobres e de média posição social (dando menos importância, no entanto, à participação dos cativos). Do outro lado, alguns historiadores creem que a conjuração estabeleceu algum elo entre os extremos sociais, propiciando a circulação de ideias e uma coparticipação na organização do movimento.
As chamadas “francesias” foram elo entre os diversos grupos sociais. A expressão era de uso corrente, servindo para designar ações que expressavam sentimentos anti-monárquicos (mais precisamente republicanos), autonomistas (isto é, favoráveis à emancipação política) ou anti-religiosos. As “francesias”, portanto, tratavam-se frequentemente de um duplo e combinado ataque: à religião e às instituições políticas.
As próprias autoridades de então já enxergavam esse duplo combate. Segundo um documento anônimo, na lógica dos que seguiam as “francesias”, “se devia principiar pela destruição da Religião, porque destruída esta, falta logo o espírito de caridade nos sublevados e faltando-se esta enchem-se logo o espírito de tirania e cheios desse espírito, cortam, freiam, matam, esquartejam, desonram e roubam a torto e direito, e causam com desumanidade todos os mais donos e males ao povo”. Na verdade, como bem assinala Istvá Jancsó, “Religião e política formavam um emaranhado inextrincável, tanto aos olhos do poder quanto ao daqueles que negavam sua legitimidade”.
O dissenso historiográfico tem origem, em grande parte, na própria documentação que serve de base para os estudos históricos. De um lado, a devassa conduzida pelo desembargador Avelar de Barbedo, entre agosto e novembro de 1798, para averiguar a autoria de pasquins sediciosos afixados naquele ano em Salvador. De outro, aquela dirigida pelo desembargador Francisco Sabino Álvares da Costa Pinto, entre agosto de 1798 e novembro de 1799, para analisar a tentativa de sedição de 1798. Tais investigações foram objeto de duas edições: uma primeira, datada de 1931, da Biblioteca Nacional, intitulada A Inconfidência da Bahia: devassas e seqüestros. E a segunda, de 1998: Autos da Devassa da Conspiração dos Alfaiates, do Arquivo Público do Estado da Bahia.
Segundo Luís Henrique Dias Tavares, a edição da Biblioteca Nacional é incompleta, trazendo apenas partes das duas devassas. Além disso, nos próprios autos transcritos existiriam negliências e ambiguidades. Os interrogatórios não visaram à “elucidação de aspectos importantes”. No inquérito conduzido, por exemplo, pelo desembargador Avelar de Barbedo, não se entende por que não foram localizados dois personagens citados: Manoel Henriques e João da Silva Norbona, apesar de haver informações suficientes para isso.
Nas duas devassas, os desembargadores Barbedo e Costa Pinto preferiram considerar que um dos conjurados, Luís Gonzaga das Virgens, inventou quando atribuiu a João da Silva Norbona a autoria dos cadernos que foram encontrados com ele próprio. Affonso Ruy aponta outro silêncio das investigações: elas não procuram descobrir as razões da presença de um oficial inglês, hóspede do sargento Joaquim Antônio da Silva, em reuniões realizadas na casa do alfaiate João de Deus.
O modo como a justiça secular, enfim, sob as mãos dos desembargadores, conduziu as investigações, circunscrevendo a tentativa de sedição à “baixa ralé”, definiu – e restringiu –, por si só, a suposta origem social do movimento. Assim, limitou-a a um espectro social que vai dos escravos a pessoas de um nível um pouco mais elevado, como trabalhadores manuais e soldados já fora da condição servil.
No embargo que fez em defesa dos réus, o bacharel formado em Leis, José Barbosa de Oliveira, procurou negar que eles tivessem intenção “de promoverem um levantamento e sedição contra o estado com o fim de estabelecerem um governo democrático”. Alegou que a iniciativa requereria leis e Luzes, e que estes refinamentos seriam inacessíveis a homens da qualidade dos réus: “uns oficiais de alfaiate, outros de pedreiro, outros soldados rasos, escravos e de menor idade, todas pessoas de baixa-ralé”.
Logo, em paralelo à própria condução da investigação pelos magistrados, que livrou os homens de melhor condição e tornou réus apenas os de baixa extração social, a defesa que se fez dos conjurados também restringiu o enraizamento social do movimento. Todavia, a mesma defesa parecia ter consciência de que os envolvidos na tentativa de sedição não se limitavam aos “réus”, àqueles elementos da “baixa-ralé”.  Ou ao menos que, dentre eles, existiriam divisões e seriam necessárias, por isto mesmo, articulações que unissem os segmentos presentes no movimento.
Assim, dizia José Barbosa de Oliveira: “Para se dar democracia era necessário que os embargantes [isto é, os réus] tivessem previsto e ordenado antes a divisão das classes donde deveriam sair os eleitos assim como praticou Sólon em Atenas”, algo impossível para pessoas daquela – má – qualidade.
Conforme assinala Carlos Guilherme Mota em livro seminal, os próprios sujeitos históricos envolvidos em movimentos de contestação, em fins do período colonial, tinham consciência que as diferentes condições sociais faziam com que “participassem de maneiras diversas – e por vezes antagônicas – no processo em curso”. E, assim, “existiam oposições entre ‘pardos e pretos’”, os elementos não-brancos envolvidos na Inconfidência da Bahia, percebidas pelas autoridades, como era o caso do então governador D. Fernando, que considerava os pardos mais astutos e sagazes.
Em grande medida devido aos mistérios que cercam a identidade, o perfil social e a circulação de ideias entre os conspiradores baianos de 1798, em função dos aspectos sobre os quais há dificuldade de obter informações mais precisas, os historiadores não chegam a um acordo sobre como isto se deu. Um aspecto essencial no que diz respeito às articulações são as chamadas “francesias”, encruzilhada em que se encontravam os distintos atores sociais e, certamente, ponto de partida para seus desencontros. 

O padre subversivo

Francisco Agostinho Gomes nasceu em 1769, em Salvador. Era filho de um grande comerciante estabelecido na Bahia, com ascendentes na província de Trás-os-Montes, em Portugal, homem cuja opulência e prestígio parecem ter pavimentado seu caminho para que fosse habilitado como cavaleiro professo na Ordem de Cristo.
O pai logo percebeu os dotes intelectuais que o descendente tinha, e destinou-lhe cedo a Portugal para estudar e abraçar a vida eclesiástica, dentro da qual alcançou a ordem de diácono. Mas com a morte do progenitor, Agostinho teria voltado ao Brasil e, graças a um indulto apostólico, veio a licenciar-se de suas obrigações como diácono para gerir a casa comercial que herdara.
Agostinho herdou uma fortuna, mas não se dedicou às atividades do seu ofício. Preferiu seguir aquelas com as quais tinha mais afinidades: a ciência, que lhe era familiar, particularmente a botânica, para cujo desenvolvimento o padre encontrava no Brasil as melhores condições para desenvolver observações. Para realizar suas incursões científicas, ele fez estudos de francês e de inglês, completando-os sem ter um mestre.
Em 1796, Francisco Agostinho Gomes entregou a administração de sua casa comercial a Manuel José de Melo, o que lhe permitiu viajar para Portugal. Anos depois, retomou a administração dos negócios, em função dos prejuízos que lhe causou o administrador que escolheu. Nos anos de 1797 e 1798, se envolveu em discussões relacionadas, de algum modo, à conjuração que eclodiu na Bahia naquele período.
Após 1798, buscou aproximar-se de D. Rodrigo de Souza Coutinho, ministro do Príncipe Regente D. João. Nesta estadia em Portugal, desenvolveu uma série de iniciativas que mostram seu espírito empreendedor, científico e suas ligações com a corte. Num momento em que os portugueses procuravam dinamizar sua economia e enfrentar as restrições que a Inglaterra fixou para a saída de seu cobre, em julho de 1799 Agostinho propôs a formação de uma companhia para a exploração de minas de cobre e ferro na Bahia. Solicitou, ainda, para tanto, sesmarias, escravos, mineiros e isenção de impostos sobre os metais, além do privilégio de fundi-los e a preferência de sua empresa para extrair outros minérios nas áreas sob seu controle.
Ele dizia ter “o intuito de fazer com que Portugal venha a ser abundante de metais tão úteis à agricultura, às artes e à navegação, e para que o nosso Portugal possa ter uma Marinha de Guerra que seja respeitável”. Em agradecimento às benesses pleiteadas, Agostinho prometeu fundir com o primeiro cobre que encontrasse uma estátua em homenagem ao príncipe regente e ao seu governo. Além disso, em 1800, o comerciante baiano enviou muitas plantas nativas do Brasil ao Jardim Real de Lisboa, classificando-as segundo o sistema de Lineu, e propôs a propagação de novas culturas, como a da pimenta-da-índia.
Em 1802, o viajante inglês Thomas Lindley, que havia conhecido Agostinho numa viagem anterior, o reencontrou na Bahia, o que mostra que o padre já havia, então, retornado do reino. Na biblioteca do baiano, Lindley deparou-se com livros escritos em francês e inglês. Lá se encontrariam L’Encyclopédie,de d’Alembert, e mais obras de Buffon e Lavoisier, entre outros autores sobretudo de história natural, economia política, viagens e estudos de filosofia, aos quais ele juntara um completo aparato astronômico vindo de Londres.
Os autores e títulos encontrados por Lindley na biblioteca de Agostinho convergem quase que integralmente com o acervo de livros a ele despachado de Lisboa em fins do século XVIII, com exceção da L’Encyclopèdie – na lista de obras de 1799, não há nenhum título que se aproxime, e na de 1800 menciona-se apenas a Encyclopedia Britannica. A análise de livros comprados pelo padre, enviados de Lisboa para a Bahia naqueles anos, como consta de documentos submetidos ao Desembargo do Paço, permite inferir que ele se interessava pela área científica.
O viajante inglês, ademais, não ficou apenas na observação, tendo dialogado com Agostinho Gomes. Dele, ouviu elogios àHistória da América, de William Robertson. E, quanto a A riqueza das nações, de Adam Smith, o lamento pelo “quão pouco do seu sistema” ser “observado no Brasil”. Daí, infere-se uma referência do padre ao monopólio comercial e à defesa do livre-comércio. Seus juízos revelam, por um lado, o endosso às críticas presentes na obra de William Robertson à colonização europeia na América. E, por outro, sua adesão ao liberalismo de Adam Smith. As duas obras estavam ausentes nas listas de livros submetidas ao Desembargo do Paço em 1799 e 1800.
Segundo Lindley, Agostinho Gomes estava familiarizado com as disputas políticas do mundo anglo-saxão. Ele discorrera sobre os estudos de Thomas Paine, sobre o qual parecia enfatizar algumas de “suas inúteis opiniões”, sendo possível presumir que se tratasse de uma possível defesa da independência da América inglesa feita por Paine. Novamente, percebe-se o quanto o padre estava afinado com as ideias das Luzes mais radicais.
A perspectiva crítica do baiano somava-se ao seu interesse pela ciência. Lindley registra o fato de Agostinho ter colecionado “muitos artigos valiosos de espécies marinhas, fósseis e minerais”. Ele teria feito numerosas descobertas botânicas e mostrado algumas novas espécies, arranjadas conforme o sistema de Lineu e encaminhadas para Lisboa. Lineu, eminente cientista das Luzes, aparece entre os autores presentes na lista de livros submetida ao crivo do Desembargo do Paço em 1800. Lindley, enfim, considerava o padre Agostinho Gomes, por seu interesse científico, uma exceção no panorama intelectual do Brasil em pleno século das Luzes.
Em fins do século XVIII, Agostinho foi acusado de promover jantares de carne em dias de preceito religioso – isto é, interdição de ingestão de carne vermelha. Também mostrou simpatia pelos princípios franceses e por suas constituições. Ele lia gazetas estrangeiras e divulgava as notícias que nelas encontrava. Sua vida privada não seguia as regras estabelecidas pela Igreja, embora se enquadrasse nos padrões morais vigentes, em especial na sociedade colonial: segundo Lúcia Bastos Pereira das Neves, ele teve relações ilícitas com D. Maria Luzia, uma viúva de Salvador que lhe deu sete filhos, legitimados em 1814.
Nos idos de 1800, uma denúncia contra Francisco Agostinho Gomes foi recebida e, em seguida, encaminhada à Inquisição de Lisboa por um cônego de nome não registrado, muito provavelmente um comissário da Inquisição. Ela foi escrita pelo frei José de Jesus, certamente do Convento de Santa Tereza, da cidade da Bahia, com base em declaração feita antes por D. Josefa Francisca, moradora da rua do Fogo.
O frei, ao que tudo indica, mandou a denúncia ao cônego, que a remeteu para Lisboa. A penitente ouvira de Agostinho Gomes algumas proposições claramente heréticas. Além de afirmar que não havia pecado na fornicação simples – isto é, a relação genital entre homem solteiro, não pertencente ao estado sacerdotal, e mulher igualmente solteira, não virgem e não freira, a proposição herética mais popular da época colonial –, ele negava, implicitamente, os dogmas da consubstanciação e transubstanciação. Dizia que a hóstia era apenas um pedaço de pão. Logo, ela não se transformava no corpo de Cristo. Disto, deduzia que não haveria qualquer impedimento para a comunhão.
O clérigo baiano defendia também ideias que pareciam conjugar materialismo e deísmo. Combinava a negação da existência do Inferno à compreensão de que à alma sucederia o mesmo que se passava com os “corpos”: todas as “cousas visíveis” teriam sido criadas pela natureza, que lhes havia dado seu ser e, por isso mesmo, “acabariam com ela”. As almas, do mesmo modo que os corpos, desfaziam-se depois da morte. “E subindo aos ares se conglutinavam com os vegetais”, isto é, juntavam-se a eles.
Dessas ideias, podem ser feitas três deduções: primeiramente, que a alma funcionava como os corpos (se é que ela mesma não seria corpórea). Em segundo lugar, que a natureza era, na verdade, Deus. Ou melhor, ocuparia o lugar atribuído a Ele pelas religiões instituídas, na medida em que dava o “ser” a tudo, leitura típica dos pensadores deístas de então. E, por fim, do ponto de vista filosófico, havia um pressuposto monista, ou seja, um entendimento básico segundo o qual a realidade seria una e que nela todos os elementos teriam seu ser dado por uma mesma origem, à qual retornavam em suas transformações no tempo. Como o “ser” de todas as coisas era dado pela natureza, a transformação dessas mesmas coisas, conclui-se, processava-se conforme regras fixadas naturalmente.
Na compreensão advogada supostamente por Agostinho Gomes sobre a alma, a natureza não agiria como um árbitro que se colocaria acima das leis: logo, se é que a natureza era entendida por ele como Deus, este atuaria em conformidade com as leis naturais. Não haveria, portanto, nenhum traço de providencialismo na ação divina, na medida em que nem se fala em Deus nem muito menos se lhe confere a posição de guiar tudo o que se vê no mundo, inclusive no sentido de aplicar penas para boas e más ações do ponto de vista moral.
Todos esses elementos apontam para uma perspectiva deísta, que pode ser melhor identificada se avaliarmos a tipologia feita por Samuel Clarke, teólogo anglicano ilustrado, que curiosamente figurava com um título na remessa de livro feita para Francisco Agostinho Gomes em 1799.
Clarke dividia os deístas em quatro tipos: aqueles que pareciam crer na existência de um ser supremo, infinito, independente e inteligente, mas que negavam a providência; os que acreditavam em Deus e na providência, mas refutavam sua ação no que se referisse à aplicação de penas às ações moralmente boas ou ruins; os que aceitavam Deus, a providência, o caráter obrigatório da moral, sem, contudo, admitir a imortalidade da alma e a vida eterna; e, ainda, aqueles que acreditavam na existência de um ser único, eterno, infinito, todo-poderoso e todo-sábio, criador, conservador e monarca soberano do Universo.
As ideias do padre Agostinho Gomes pareciam enquadrar-se entre aquelas defendidas pelo primeiro tipo de deístas, na medida em que expressavam a crença na natureza, espécie de ser supremo, independente e inteligente, mas negavam a providência. Ao mesmo tempo, incorporavam todas as negações características dos outros tipos de libertinos: Deus (ou melhor, a natureza) não impõe penas às ações moralmente boas ou más. A alma não é imortal, nem há vida eterna. E Deus não é monarca soberano do Universo.
O deísmo monista subjacente às formulações de Agostinho Gomes pode ter origens múltiplas. Há pontos e convergência claros, além de distâncias evidentes entre, de um lado, as ideias do inconfidente baiano em exame e, de outro, aquelas defendidas por Bento Baruch Espinosae outros autores das Luzes. As possíveis proximidades não são indicativas de leituras diretas de um ou outro pensador, mas sim da familiaridade e da adesão do leitor Agostinho a princípios, concepções e valores que integravam um patrimônio cultural mais amplo, acessado por diferentes formas: livros impressos, manuscritos (em parte, clandestinos) e comunicação oral. 

Disseminadores de desobediências

Depois de estudar na Universidade de Coimbra entre 1786 e 1790, o cirurgião Cipriano Barata retornou à Bahia. Ali, articulou proposições heréticas e sedição num sistema coerente de ideias, conforme atestam documentos inquisitoriais.
Na ação de Barata, há primeiramente o uso de manuscritos, trasladados, copiados por letrados e postos em circulação entre os rústicos. O médico apareceu com os manuscritos, que foram copiados por Marcelino e, depois, sabe-se lá por mais quem. Tais documentos traziam ideias contra a fé e a monarquia. Além disso, inscreviam-se numa cultura marcada pela oralidade, valendo-se da mesma e nutrindo-a com elementos heréticos e subversivos, por meio do desenvolvimento da leitura oral e coletiva, feita de casa em casa.
Essas práticas conectavam os letrados e os rústicos, com a intenção deliberada dos primeiros de fazer proselitismo em prol da insurgência. Na perspectiva desses hereges e subversivos, o modelo da Revolução francesa deveria ser imitado. E ele estava associado ao aprendizado do francês, pois há menção ao ensino de língua, com professor particular.
Em suas conversas e nos manuscritos, Cipriano Barata e Marcelino de Souza juntavam deísmo e forte oposição às autoridades religiosas e monárquicas, além de desprezo à religião católica: “[…] afirmam e mostram crer que, fora de um Ente Supremo, tudo o mais é fantasma e em nada se deve crer; que não há Inferno, nem Purgatório; que a morte do homem é igual a de outro qualquer Bruto e que, por isso, aquele pode usar livremente da sua vontade e gozar das delícias que o Mundo produz; que tudo o que se vê criado sobre a Terra se deve ao Homem, e não a Deus; que os Ministros da Igreja são uns Impostores, que destroem a Sociedade Humana, e igual absurdo afirmam dos Monarcas. Finalmente, desprezam a Religião e os seus preceitos. E só estão prontos a morrer pelos erros que seguem, que dizem hão de se retratar se forem presos pelo Santo Ofício, permanecendo depois na Sua antiga crença.”
O deslizamento-imbricação da heresia e da sedição foi claramente percebido por João Lobato de Almeida, comissário da Inquisição de Lisboa. Ele faz este registro em suas reflexões sobre a atuação de Barata e de Marcelino Antônio de Souza, e sobre a Bahia em fins do século XVIII, escritas em correspondência dirigida à Inquisição e à rainha D. Maria I. O comissário apontava um processo ameaçador à ordem religiosa e política, e identificava determinados atores sociais, comportamentos e proposições heréticas e subversivas.
No âmbito das proposições, citava as “francesias”, pelas quais se somava a descrença na vida da alma ao destemor em relação ao corpóreo, heresia e sedição. Como atores, ele menciona, de um lado, Cipriano Barata e outros doutores, “desobedientes” e disseminadores de desobediências. E, de outro, o governador da Bahia D. Fernando Portugal e Castro e mais “mestres”, que em vez de reprimir práticas, ideias e comportamentos subversivos, agiam com tolerância. Alguns desses mesmos oficiais da Coroa, dizia, eram partidários dos princípios abraçados pelos acusados de francesias.
Na correspondência à Inquisição, o comissário fazia um clamor à Sua Majestade e manifestava uma obediência “cega”, postura questionada pelos sediciosos e hereges da Bahia: “Clamo a Vossa Majestade, com o grande fervor de um verdadeiro católico, queira pôr as providências necessárias a fim de degolar a cabeça da hidra infernal, que vai, com passos insensíveis, produzindo a sua maldade, a fim de desterrar desta terra a nossa santa religião e obediência cega, que sempre professou aos nossos monarcas”.

Saiba Mais

JANCSÓ, István.Na Bahia, contra o império: história do ensaio de sedição de 1798. São Paulo: Hucitec: Salvador: UFBA, 1996.
MOTTA, Carlos Guilherme. Idéia de Revolução no Brasil (1789 –1801): estudo das formas de pensamento. Petrópolis: Vozes, 1979.
NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das; NEVES, Guilherme Pereira das. A biblioteca de Francisco Agostinho Gomes: a permanência da ilustração luso-brasileira entre Portugal e o Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v. 165, n. 425, p. 11-28, 2004.
RUY, Affonso. A Primeira Revolução Social Brasileira (1798). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1942.

TAVARES, Luís Henrique Dias. História da sedição intentada na Bahia em 1798: a conspiração dos alfaiates. São Paulo: Pioneira, 1975.