As fortificações foram pontos de
concentração de poder, com uma sociedade definida em cada detalhe pela vontade
de seus senhores.
Georges Duby
Habitantes do castelo defendem-se jogando pedras em seus agressores
Seja na forma de uma rústica edificação
rural ou na impressionante arquitetura de Versalhes, o castelo tem uma carga
emocional muito particular.
Há, na Europa, muitas regiões salpicadas de áreas
delimitadas, que têm como centro essa construção simbólica da nobreza. Em
espaços vastos o suficiente para acolher toda uma população com seu gado e
reservas.Alguns estavam em plena atividade durante a alta idade média e outros
mantiveram a mesma função ainda por volta do ano 1000.
Em algumas cidades da França, havia alguns
erguidos sobre vestígios de monumentos romanos. Na região plana, a maior parte
das antigas fortificações foi abandonada por novos fortes, que não se
organizaram segundo um plano de conjunto. O aparato defensivo se estreitou,
concentrando-se no torreão - donjon, em francês -, termo, como o vocábulo
danger - perigo -, derivado da palavra dominium, que exprime o poder do senhor.
Construído de madeira ou de pedra, esse tipo de edifício de três níveis não era
uma residência. As moradias ficavam à distância e incluíam a "sala",
onde se ostentava o poder publicamente. A função da torre era militar e
simbólica. Também servia de esconderijo para guardar bens preciosos. Acima
ficavam os vigias, que abarcavam com o olhar o conjunto do distrito, e o
estandarte, emblema de poder. Quando não estava fixada num penhasco, numa
"rocha", a torre se elevava no alto de um montículo de terra de dez
metros de altura e cuja plataforma cobria apenas uma dezena de metros
quadrados. Era o "mouchão", que dominava uma série de aterros
menores, em que se dispersavam os prédios residenciais e de serviço.
Na primeira metade do século
XI, multiplicaram-se as referências, muitos dos edifícios mantidos por
personagens sem laços políticos com os representantes do poder real. No período
em que poder público e poder privado se fundiram, disseminou-se a tentação de
edificar "mouchões" e torres. Livremente, ao sabor das
circunstâncias. Certifica-o um regulamento elaborado em 1091, conhecido pelo
nome Constitutiones et justitiae. Ele fixava princípios anunciados 40 anos
antes por Guilherme, o Conquistador: "Ninguém, na Normandia, pode cavar
uma fossa em terreno plano, a não ser que, do fundo dessa fossa, a terra possa
ser jogada para cima sem a ajuda de uma escada de mão, nem ali estabelecer mais
do que uma linha de paliçada, e isto sem redentes nem caminho de ronda; e
ninguém pode fortificar uma rocha nem uma ilha". O poder soberano
autorizava cercas ao redor das "Cortes", mas exigia que fossem leves;
nada de mouchões, nada de castelos novos.
A torre era o signo de um
domínio. Eventualmente, seu guardião comandava em nome de um superior, de um
senhor do regnum ou do condado. Nesse caso, era designado pelo ofício que
exercia: castelão, castellanus. No entanto, a maior parte do tempo, não
dependia de ninguém. Era o dono, algo muito bem expresso no título que se
arrogava, dominus ou sire em língua vulgar. O poder real estava em suas mãos.
Mas, fosse o castelo i ndependente ou não, lá o chefe empunhava a espada da
justiça, entregue por Deus aos guerreiros para a manutenção da paz na terra.
Quando já não era fisicamente capaz, próximo da morte ou da senilidade, o
senhor transmitia suas funções a um dos filhos ou parente próximo, em cerimônia
solene.
Uma parte da guarnição considerava o sucessor um intruso do qual convinha se
livrar. Não faltavam candidatos à herança: em suas veias corria o sangue do
falecido amo, eram os irmãos mais novos, os sobrinhos, os primos e sobretudo os
bastardos. Em parte, essa "família" era consangüínea. No entanto, sua
coesão procedia principalmente de uma camaradagem aquecida pela comensalidade e
pela ação comum. Os guerreiros do castelo eram condôminos do poder ligado à
fortaleza, e o senhor não podia geri-lo sem consultá-los. Eles ajudavam a
afirmar esse poder.
Esses homens brutais, que rivalizavam incessantemente, que oscilavam entre o
amor e o ódio mútuos e dormiam juntos na sala quando se tirava a mesa da
refeição coletiva, recebiam o reforço temporário de outros cavaleiros ligados à
fortaleza, mas que moravam em casa própria, seja no interior da castelania ou
fora do distrito. Eis como se assegurava a guarda do castelo condal de Vendôme,
por volta de 1025. Em abril e em maio, meses de exuberância militar, o próprio
conde se unia à sua "sala", o rancho de soldados, mas, durante os
outros sete meses, a cidade era protegida por guerreiros de uma espécie
diferente. Designava-os individualmente a palavra latina miles. Era um título
que, nas listas de testemunhas, os escribas ciosos da classificação social
uniam a seus nomes próprios, enquanto a alcunha - o uso se propaga no começo do
século XI - não era um mero apelido, e sim o nome do território onde residiam.
Eram de uma classe superior. A estes, agregaram-se guerreiros do castelo,
casados um após outro pelo senhor, por ele fixados numa terra, um
"encasamento". Eles permaneciam mais estreitamente ligados à torre:
dos 55 milites vinculados ao castelo de Picquigny no fim do século XII, 25, que
residiam mais perto da fortaleza, descendiam desses cavaleiros. A "milícia
do país" não era integralmente oriunda da nobreza antiga, mas tendia a se
fechar em seus privilégios.
Só um se casava
Nas regiões de população mais rarefeita, o número de "moradores"
privilegiados parece não ter aumentado nos séculos XI e XII; ao contrário,
tendeu mais a se reduzir devido a um ajustamento das estruturas de parentela a
um modelo principesco construído em função da honra, do exercício do poder
público. Vale lembrar que, no século X, o poder dos príncipes não se dividia
nas sucessões: um só varão o tomava inteiramente, em geral, o primogênito. Para
evitar fissuras, elaboraram-se estratégias matrimoniais rigorosas. O chefe da
casa se empenhava em casar todas as filhas a fim de, por meio delas, ou melhor,
de seus filhos, firmar alianças úteis com outras casas. Mas procurava evitar
que todos os filhos homens tomassem mulher legítima. Somente um se casava.
Graças a essas práticas, as
honras principescas, mantidas pela descendência masculina, as linhagens,
conservaram a unidade ao longo das gerações. Enquanto o dever de dirigir o povo
se esfacelava castelo por castelo, costumes parecidos se aplicaram àquela honra
que era a castelania, preservando-a da divisão. Eles se impuseram pouco a pouco
às moradas de guerreiros que, pelo feudo, participavam do serviço público, e os
cavaleiros domésticos também os adotavam quando seu mestre os instalavam num
patrimônio. Esses usos que limitavam a nupcialidade masculina introduziram um
temível fermento de turbulência no seio da sociedade aristocrática. Tornavam
ilegítima a sexualidade da maioria dos homens adultos, multiplicando os
bastardos. Mas a verdade é que o grande problema não provinha disso.
Formados no ofício das armas, talvez eles fossem mais bem integrados ao grupo
familiar do que seus irmãos nascidos de uniões formais: estavam excluídos de
herança, mas permaneciam na casa. Já os filhos e os sobrinhos legítimos
geralmente a abandonavam, na adolescência. Assim como os soberanos da alta
Idade Média "sustentavam" os filhos de seus fiéis durante o
aprendizado, o príncipe acolhia em sua Corte os dos senhores dos castelos
satélites, e estes tratavam do mesmo modo os meninos nascidos nas moradas dos
"guerreiros do país". Esse sistema educacional era, ao mesmo tempo,
fator de ordem e de desordem. Tendo recebido as armas, os cadetes não
retornavam ao lar paterno, mantinham-se junto do pai adotivo, empenhados em bem
servi-lo na esperança de dele obter o presente mais cobiçado, uma esposa e um
encasamento.
Era muito simples a configuração da sociedade leiga. Dividia-se em dois grupos:
de um lado, os homens de guerra e de serviço, os milites - palavra do latim
vulgar que significa "cavaleiro" -, de outro, os rustici, os
rústicos, os que trabalhavam a terra. Estes ficavam sob o domínio do castelo.
Todos eles ficavam sob a proteção daquele que mandava: fossem vilões residentes
no território, naturais do lugar ou recém-chegados acolhidos como
"hóspedes".
O senhor da fortaleza, tal como o rei, ficava encarregado de uma missão dupla.
Devia protegê-los e sobretudo defendê-los dos locais, sempre dispostos a
despojá-los de tudo. Devia vingá-los caso fossem vítimas de um crime grave,
punir o homicídio, o furto, o rapto, o incêndio, o adultério. Nesse caso, a
vingança era pública, pois tais delitos desonravam a comunidade. Não havia
necessidade de queixa, do "clamor" dos que haviam sido lesados, para
que se infligisse ao culpado um castigo corporal, exposição, flagelação,
mutilação, enforcamento. A essa alta justiça, dita de sangue, não escapavam os
membros das famílias protegidas pelos cavaleiros ao redor de sua morada.
Em troca da segurança
oferecida, o senhor queria contrapartida. Primeiramente, como o rei, exigia ser
ajudado no exercício de sua função. Os vilãos fortes (não portavam espada, nem
montavam cavalos, porém manejavam outras armas, embora a aristocracia vivesse
no temor das insurreições populares), deviam acompanhar a pé a cavalaria quando
das expedições ofensivas. Esperava-se sobretudo que contribuíssem com a defesa
pública pelo trabalho manual, a corvéia. Eram os camponeses que cavavam as
fossas, erguiam o mouchão, cortavam e fincavam as estacas das paliçadas.
Calcula-se que a edificação de um fortim demandava o trabalho de 50 operários
durante quatro dias.
Aos chefes do castelo, os casebres camponeses deviam acima de tudo abastecimento.
Duas palavras o designam: exactio, que, sem nenhuma inflexão pejorativa,
significa coleta; e consuetudo, que quer dizer costume. Qualificar certos
costumes de maus pressupunha, com efeito, a existência de bons. A própria
palavra utilizada implicava o consentimento dos homens que pagavam impostos e
guardavam a lembrança dos usos justos. Para os amos, e sobretudo seus agentes,
a senhoria era um negócio. À medida que as comunidades camponesas se tornavam
menos famélicas, seus defensores procuravam extrair cada vez mais. Introduziram
no costume seu direito de "talhar", como o vocabulário da época dizia
sem rodeio, de tomar à vontade. Muitas comunidades, porém, se rebelaram.
Esse sistema de exploração teve forte influência sobre a evolução econômica e social
das regiões da França. Alimentou a generosidade dos senhores e as dilapidações
dos cavaleiros. Também teve o efeito de nivelar a classe dos explorados. Por um
lado, igualmente percebidas em todos os lares camponeses, as exações, cobranças
rigorosas de taxas, aplainaram as distinções jurídicas entre os livres e os
outros: no curso do século XI, caíram em desuso os antigos vocábulos que
designavam os escravos. Por outro, elas foram, nos primeiros tempos, pesadas
demais para reabsorver os desvios de riqueza entre aqueles que os cavaleiros
designavam por "rústicos". Enfim, cavaram um fosso profundo entre os
explorados e aqueles, gente de oração e gente de guerra, isentos de descontos
graças aos serviços que deviam prestar e pelos quais cada um recebia sua parte.
Pela fiscalidade senhorial, a sociedade se dividiu em dois campos. De um lado,
a solidariedade na resistência. De outro, a altivez do privilégio e o desprezo
pelos que dele não participavam.
Os escribas denominavam distrito, "estreito" (do latim distringere) o
território protegido pela torre. A ordem era estabelecida pela coação
implacável. Para os camponeses e os viajantes, o homem que comandava a
fortaleza era o dominus, o dono. Mas, na linguagem falada, era o senhor, vale
dizer, o mais velho. Os cavaleiros eram igualmente coagidos, mas por um impulso
livre do coração. Pressupunha-se que amavam o homem que os reunia sob o seu
estandarte, tal como numa casa os jovens amam o idoso. Essa relação unia os
homens do mesmo sangue.
Como os cavaleiros do cantão
se tornavam quase filhos seus pela homenagem, o senhor estendia sua justiça
sobre eles. Entretanto a exercia com prudência, com flexibilidade. A
generosidade do senhor mantinha a lealdade dos vassalos. Ele devia distribuir o
que extraía do seu poder. A única coerção que a cavalaria suportava no espaço
restrito do distrito procedia da reciprocidade do dom. Esperava do amo da torre
o prazer, os festins, mulheres, o encasamento, o feudo enfim, a participação
nos lucros da exploração senhorial. Em troca, ele oferecia ajuda e conselho.
Todavia o prazer era, acima de tudo, o de combater, de juntos partirem, de
atacarem, de pilharem em terra alheia. Todo senhor devia "fazer o
bem" aos seus homens concretamente. Sem generosidade, não havia serviço.
Toda a ordem se apoiava nos castelos, que se integravam à cidade, isto é, ao
vestígio mais evidente das antigas estruturas estatais, e seus guardiões deviam
ao príncipe uma fidelidade de Estado. Seu encargo era considerado uma
"honra", e o que se lhes concedia no castelo era tido por um
"fisco". Em contrapartida, os auxiliares desses guardiões eram
definidos como "vassalos", concessionários de um "feudo",
pelo qual participavam do poder de coerção que emanava da torre e do que ele
produzia.
O dever do "fiel", daquele que jurava fidelidade ao seu dominus, era
o de abster-se de lhe causar dano. A fidelidade não era senão segurança jurada.
Mas, se o fiel recebesse um "encasamento" do senhor, não bastava
apenas se abster de fazer o mal, cabia-lhe fazer o bem para merecer a
benfeitoria. Ele devia ajuda e conselho ao senhor desde que este lhe
dispensasse tratamento equivalente. Do contrário, seria caso de má-fé. Ele era
culpado. No entanto, o "encasado" que faltasse ao dever era mais
culpado ainda: por ser pérfido e perjuro. O senhor apenas prometia. O homem
jurava. E o perjuro era passível de castigo infligido em nome da "lei
divina".
-Tradução de Luiz A. de Araújo