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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Educação étnico-racial: reflexões iniciais

Márcio Ramos

A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história  “

Chimamanda Adichie

A escola ainda é um dos locais fundamentais na formação do sujeito. Geralmente é no momento de chegada à escola que o mundo da criança se amplia e ela percebe o quão diferente as pessoas são, que ela que ela terá que lidar com essa realidade e estabelecer laços para se acomodar minimamente nesse novo mundo. A escola contribuirá para a formação dessa criança através de uma outra narrativa, diferente da que ela tinha acesso em seu grupo familiar e social.

É importante que essa narrativa que a escola constrói e transmite aos alunos que aqui chegam, dê conta da multiplicidade da experiência humana. Não se pode mais conceber uma educação que se baseie em uma interpretação única de mundo, ou que apenas reforce a visão das famílias sobre a realidade. A escola precisa ampliar o olhar de cada educando, dando-lhes asas, no dizer de Rubem Alves.

Neste contexto, uma educação étnico-racial é necessária. Principalmente em nosso país, formado por mais de 50 % de negros, marcado por mais de 300 anos de escravidão e que ainda não deu conta de resolver o grave problema do racismo e a inclusão social dos negros. Nos negamos a enfrentar a questão e adotamos o mito da democracia racial para manter uma aparência de paz social. Mas a necessidade da criação de uma lei que determina o ensino da história e cultura afro-brasileia nos mostra o quanto o problema ainda permanece.

Para se efetivar a implementação da Lei 10639 em sala de aula, algumas reflexões são necessárias. Penso que existem duas ações necessárias e complementares neste processo. A primeira linha de ação diz respeito ao nosso conhecimento sobre a África e sua relação com o Brasil e a discussão da temática com nossos alunos. O outro aspecto diz respeito à forma como lidamos com nossos alunos negros em sala de aula e como incentivarmos o respeito à diversidade e o combate ao racismo.

Sejamos realistas, o nosso conhecimento sobre os povos não europeus é muito precário. Os povos do “Oriente” e africanos aparecem em nossa cosmovisão como exóticos,estranhos, os “outros”. A maior parte das informações que temos tem origem nos programas de TV e de filmes, que caricaturizam a história e a cultura desses povos. É necessário um grande esforço para desnaturalizarmos essa visão, para conseguirmos ir além dessa narrativa hegemônica a que estamos submetidos.

O primeiro erro é pensar a África como um país. Sim, muitas vezes nos referimos à África como um país, esquecendo que o continente africano é formado por mais de 50 países, que são distintos entre si, tanto do ponto de vista geográfico, como político, econômico e cultural. Essas diferenças se dão pelo tamanho do continente e por sua história. Precisamos discutir com nossos alunos sobre essa diversidade e não tratar toda a África como algo uniforme. É necessário combatermos a visão midiática de que a África é uma região só de guerras civis, epidemias e pobreza. Apesar das dificuldades enfrentadas pela maior parte do continente, essa não é a realidade de todos os países africanos. Países como Seicheles e Maurícia possuem IDH maior do que o Brasil. Grande parte dos países conquistaram sua independência a pouco mais de 50 anos, estão se constituindo enquanto Nação e logicamente enfrentam dificuldades nesse processo.

Precisamos mostrar a nossos alunos que todos nós temos uma origem africana. Os primeiros homens viveram na África e lá se desenvolveram grandes civilizações, como o Egito Antigo. Muitas vezes falamos do Egito como se ele não fosse africano, e o cinema e novelas reforçam essa visão ao retratar os egípcios como brancos. Perceber as contribuições técnicas e culturais é importante para resignificarmos a imagem e o papel do negro na história. Os professores podem mostrar a técnica altamente desenvolvida pelos africanos na construção das pirâmides, seus conhecimentos medicinais e metalúrgicos.

A obrigatoriedade legal de se estudar história e cultura africana, assim como a indígena, pode nos proporcionar a oportunidade de tratar esses povos em sua humanidade. Ou seja, às vezes sempre partimos da discussão sobre a escravidão e podemos reforçar a imagem dos negros como escravo. Quando discutimos sobre escravidão, negro parece ser sinônimo de escravo. Por isso é preciso um cuidado muito grande na seleção e análise de imagens e textos para o trabalho escolar. Temos que problematizar a experiência histórica desses seres humanos, seus desejos, suas lutas, sua resistência.

Discutir e tratar as religiões de origem africana como parte da herança cultural da humanidade é essencial. Mostrar como as religiões tradicionais africanas valorizam a ancestralidade como força definidora da identidade de cada um pode levar nossos alunos a valorizar a história e origem de seu grupo familiar e social, combatendo esse imediatismo contemporâneo. Às vezes temos dificuldades em discutir as religiões de matriz africana devido ao forte preconceito presente em nossa sociedade. Mas porque não dar o mesmo valor a essas manifestações culturais assim como dado a mitologia grega?

Um detalhe importante sobre as religiões existentes na África é que, ao lado das religiões tradicionais, temos a presença do islamismo, principalmente no norte do continente, assim como das religiões cristãs. Homogeneizar a experiencia religiosa africana é empobrecer nosso conhecimento sobre ela.

Da mesma forma que o conhecimento sobre a África e suas contribuições para a formação da sociedade brasileira são importantes para permitir a formação de identidade dos alunos, a forma como lidamos com as questões suscitadas nos conflitos do dia a dia na escola, também é definidora de uma boa educação étnico-racial. Não podemos jogar para debaixo do tapete situações de discriminação e racismo.

Não podemos apenas realizar comemorações esporádicas e especificas como o Dia da Consciência Negra e não enfrentar nossa dificuldade em lidar com a questão racial. Não basta o tema estar no currículo oficial da escola, se no currículo oculto negamos a esse sujeito sua humanidade. Continuar o debate e construir ações para uma educação que respeite a diversidade e as várias narrativas existenciais  é o desafio que temos pela frente e toda a comunidade escolar precisa se apropriar desta importante discussão.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A formação da mentalidade do homem moderno

A partir do final da Idade Média, com a transição para o capitalismo, uma nova classe social se destaca como determinante nas relações sociais, a burguesia. Lentamente esta classe, e as transformações sociais, colocam fim aos antigos valores da nobreza, criando um mundo com uma mentalidade cada vez mais burguesa.

A burguesia foi adquirindo cada vez mais poder econômico, mas era limitada em suas ações pela cosmovisão da Igreja, que dentre outras coisas, proibia a usura. Os ideais da nobreza também impediam o sucesso dos burgueses, já que não valorizavam o trabalho e o lucro. Os séculos XV e XVI foram o período de maior transformação econômica e social benéficas à burguesia.

O primeiro grande movimento foi a formação dos Estados Nacionais. A Idade Média havia se caracterizado pela fragmentação política, com a existências de inúmeros feudos e um poder real enfraquecido. Isso começa a se modificar com a crise do feudalismo, que resultou na formação dos Estados europeus, como Portugal, Espanha, Inglaterra e França. A unidade política, administrativa e territorial beneficiou o avanço econômico da burguesia nesse processo, já que tinham uma infraestrutura mais adequada ao comércio.

Essa centralização do poder real precisava de um respaldo ideológico para sua sustentação. Por isso, vários pensadores elaboraram teses explicativas sobre a necessidade do poder real. Um desses pensadores foi Thomas Hobbes, que afirmava que a única forma de se manter a ordem social e tirar o homem de seu estado de violência, já que `o homem é o lobo do homem`, é abrirmos mãos da liberdade no Pacto social. Em troca teríamos a defesa da vida e da propriedade pelo Estado. Já outros pensadores, como Bodin, afirmavam que o rei tem o direito ao governo dado por Deus, por isso não podia ser questionado.

As chamadas Grandes Navegações ampliaram a visão de mundo dos europeus, contribuindo para as reformas do pensamento da época, provocadas pelo Renascimento e pela Reforma Protestante. O Renascimento que se iniciou na península italiana e pouco a pouco se espalhou para o restante do continente, resgatou os valores da Antiguidade, que recolocavam o homem como centro da reflexão sobre a vida. Passava-se a explicar o sentido da vida à partir das ações humanas e não mais da vontade de Deus. Nas produções artísticas toda a beleza das formas, da criatividade humana eram demonstradas. O Teocentrismo foi combatido, assim como a visão geocêntrica do Universo. Para isso, aquela explicação que se baseava na fé não atendia mais. Era preciso usar a Razão para se chegar ao conhecimento do mundo. Não se negava a existência de Deus, mas se tentava compreender o funcionamento do cosmos através da observação e da experimentação.

Essas transformações levaram também a uma nova imagem sobre Deus e a relação humana com a divindade. Se até o século XV a Igreja Católica havia tido o monopólio da fé, esse poder começa a ser questionada nesse momento. O grande nome de sucesso nesse processo de ruptura foi Martinho Lutero, que ao fazer críticas à igreja e propor mudanças foi excomungado, e, auxiliado pelos príncipes alemães, funda uma nova igreja, a Luterana. O principal diferencial da reforma luterana está na concepção de salvação, não mais pelas obras católicas, mas pela fé. Além disso, influenciado pelo novo Humanismo, a estrutura clerical é criticada e o que se propõe é que cada fiel seja seu próprio sacerdote. Ou seja, apesar da vida em comunidade continuar sendo incentivada, houve uma guinada ao indivíduo.

Enfim, o início da Era Moderna trouxe uma nova perspectiva do humano, que não era apenas um cumpridor da ordem divina, mas um ser que tentava ser protagonista, compreender  e interferir no mundo.

Márcio Ramos

sábado, 22 de junho de 2013

Sobre a manifestação de 21 de junho de 2013 em Ribeirão das Neves


SOBRE AS MANIFESTAÇÕES EM RIBEIRÃO DAS NEVES

Ontem tivemos em nossa cidade uma grande mobilização da sociedade, como nunca houve. Inspirados nas manifestações nacionais e se organizando via redes sociais, uma grande multidão foi para as ruas manifestar sua indignação contra os rumos políticos e sociais tomados pela administração pública.

Na realidade, o movimento começou no início da semana quando os moradores do bairro Liberdade fecharam a BR 040 durante toda a manhã de segunda-feira protestando contra o péssimo serviço de transporte oferecido no município. Na última sexta-feira, a BR foi novamente palco de manifestações, tanto dos moradores do Liberdade, quanto dos bairros Veneza e Florença. Ficou fechada por 14 horas . Finalmente tivemos a manifestação "Vamos pra rua" à tarde, que bloqueou a rodovia que liga o centro de Neves a Justinopolis e durante a noite realizou passeata pelo centro da cidade e na garagem da Transimão. A passeata transcorreu de forma pacífica, com a participação de trabalhadores, estudantes, crianças, idosos etc, grande maioria carregando suas bandeiras de luta.

Apesar das críticas feitas ao movimento , devido à ação de um pequeno grupo e de um elemento criminoso que atirou na polícia, entendo que essa mobilização é extremamente importante para se repensar a organização política dos cidadãos nevenses. E a política da qual estou falando não é simplesmente a tradicional participação nas eleições através do voto, mas a política do dia a dia, da possibilidade de tomada de consciência de que podemos interferir nos rumos de nossa cidade, de forçar nossos representantes, dentro do sistema político atual, a de fato representaram os interesses públicos e não os do capital empresarial.

A senhora prefeita Daniela fez uma declaração à noite sobre a redução dos preços das passagens de ônibus intramunicipais(os verdinhos) em 25 centavos, e comemorou dizendo que foi a maior redução no estado de Minas. Acho que a leitura que podemos fazer disso é que as passagens do município estão entre as mais caras da região e o lucro da Transimao enorme, por isso essa possibilidade de redução, como resposta aos movimemtos sociais. Já passou da hora de revermos o monopólio dessa empresa no transporte público de Neves e a abertura de licitação como meio de se buscar melhorias na qualidade do transporte essencial para milhares de nevenses que trabalham fora da cidade.

Um detalhe importante é que essa mobilização tem um formato diferente, mas não é o nascimento dos movimentos sociais em Neves. Existem vários atuando em nossa cidade e nesse momento a unificação da luta é importante para a organização e o fortalecimento de uma agenda de reivindicações que atenda à maior parte de nossos cidadãos.

Finalmente, toda essa mobilização responde a uma visão conformista e determinista que reinava no imaginário social de que não é possível se fazer nada diante dos desmandos dos governantes. Vimos que é possível. Precisamos simplesmente de mobilização e organização para sermos ouvidos e, com persistência e luta seremos atendidos.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O corpo de Cristo

A festa católica do Corpus Christi, celebrada numa quinta-feira após o domingo da Trindade, tem sua origem no século XIII,  quando uma freira belga teve um sonho revelador
Marcello Scarrone
Imagem de Santa Juliana de Liège



A festa de Corpus Christi (Corpo de Cristo, em latim) deve sua origem a uma freira agostiniana belga, Juliana de Mont Cornillon ou Juliana de Liège (1193-1258). No começo do século XIII, a religiosa teve algumas visões: em uma delas, a Igreja teria aparecido no semblante de uma lua cheia, mas atravessada no
meio por uma faixa escura, como se faltasse uma festividade. Numa outra visão, o próprio Cristo teria pedido que ela se empenhasse para a criação de uma solenidade em homenagem à Eucaristia.

Foi o que Juliana fez: escreveu a várias autoridades religiosas na Europa do tempo. Até que, em 1246, um sínodo da diocese de Liège instituiu a festividade, limitando-a ao seu território. A história da festa, todavia, estava destinada a ter uma continuação surpreendente. Entre as pessoas consultadas por Juliana estava o eclesiástico Jacques Pantaléon, também da província de Liège, que aprovou o pedido da freira e trabalhou para a instituição da celebração. Anos depois ele foi nomeado bispo e, mais tarde, Patriarca Latino
de Jerusalém e em 1261 foi eleito papa, com o nome de Urbano IV.

Milagre motivou expansão da festa

Sem dúvida, o novo pontífice conservava dentro de si a recordação da festa instituída em sua terra natal e talvez já pensasse em estender sua celebração à toda a Igreja, mas um evento surpreendente veio acelerar as decisões. Em 1263 ou 1264, um sacerdote da Boemia, durante uma peregrinação na Itália em direção à Roma, tomado de dúvidas a respeito da presença real do corpo de Cristo na Eucaristia, celebra uma missa numa igreja da cidade de Bolsena. Durante a celebração, a hóstia se transforma em carne e algumas gotas de sangue caem no corporal - o pano de linho que se estende sobre o altar. Impressionado, esconde
carne e sangue no tecido, deixando-o na sacristia. Depois, sabendo que o papa se encontra a poucos quilômetros, na cidade de Orvieto, o procura e lhe narra o acontecido. Recuperadas as relíquias do milagre, elas são mostradas ao povo: a grande comoção que tomou conta da cidade levou à construção nas décadas seguintes da grande catedral de Orvieto, onde desde então as relíquias são conservadas.

O evento foi um motivo a mais para Urbano IV se decidir a instituir em 1264 a festa do Corpus Christi como solenidade a ser celebrada por toda a Igreja. O encarregado pela composição dos textos litúrgicos para a nova festividade foi um dominicano que também se encontrava em Orvieto naquele momento: Tomás de Aquino. Ainda hoje, ressoam, em ocasião da benção com o Santíssimo Sacramento nas igrejas católicas, as estofes do Tantum Ergo Sacramentum , por ele compostas.

Por quê quinta-feira?

Claramente, a presença real do corpo de Jesus no pão eucarístico e de seu sangue no vinho, após a consagração da missa, vinha sendo proclamada pela fé da igreja desde os primeiros séculos e os primeiros concílios, mas a nova festividade foi reforçando esta convicção. Ainda mais quando, no começo da Idade Moderna, a Reforma protestante discutirá essa presença, interpretando a missa como uma simples ceia comemorativa, e não como a reapresentação sobre o altar do sacrifício extremo de Jesus.

Então, ostensões públicas da hóstia consagrada e procissões eucarísticas foram se multiplicando.
Ainda hoje os católicos celebram esta festividade na quinta-feira que segue ao domingo da Trindade, primeiro domingo após o dia de Pentecostes. Uma quinta-feira: afinal, esse tinha sido o dia da semana em que fora instituída a Eucaristia, na ultima ceia que Jesus consumiu com seus apóstolos em Jerusalém, na véspera de sua morte.

www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/o-corpo-de-cristo

terça-feira, 21 de maio de 2013

Se Os Tubarões Fossem Homens


Bertold Brecht

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.
Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões.
Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.
Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam
acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre sí a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.
Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .
Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.
Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.
Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.
Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Treze de Maio

Márcio Ramos
Hoje é a data em que se comemora os 125 anos da Abolição da escravatura. No dia 13 de maio de 1888 a Princesa Isabel assinou a chamada Lei Áurea, pondo fim à escravidão no Brasil.


Durante muito tempo a Princesa Isabel, filha de D. Pedro II, foi considerada uma heroína libertadora, que preocupada com as condições de vida dos negros, os liberta. Porem sabemos que essa nao é toda a verdade. O fim da escravidão não foi fruto da bondade da princesa, mas de muita luta da sociedade brasileira, de muita resistência negra. Quando a lei foi assinada apenas 5 % dos negros brasileiros ainda eram escravizados, a grande maioria havia conquistado sua liberdade através da compra da carta de alforria ou de fugas e formação de quilombos.

A escravidão negra foi implantada no Brasil ainda no seculo XVI, na economia canavieira. Achar que os negros aceitavam pacificamente a exploração é  um erro, pois a existência dos  quilombos é uma prova dessa resistência. Não esqueçamos que o Quilombo de Palmares foi apenas o mais famoso.
O trabalho escravo negro foi utilizado na agricultura, na mineração,nos serviços domésticos, etc. Apesar da resistência a escravatura se manteve por mais de 300 anos. No século XIX surge no Brasil o Movimento Abolicionista, que reivindicava o fim da escravidão. Formado por varios setores da sociedade, como políticos liberais, advogados, poetas e negros libertos, o movimento pressionou o governo pelo fim da escravidão. O governo de D. Pedro II cria as leis abolicionistas : a Lei do Ventre Livre, a Lei do Sexagenário e finalmente a Lei Áurea.

A assinatura da Lei Áurea não mudou as condições de vida da população negra e mestiça, que teve que se virar sozinha, sem nenhum auxílio do governo ou da sociedade escravocrata.  Largados à própria sorte foram ocupando os piores postos de trabalho e lugares para moradias. Ao longo do século XX e nesse inicio do século XXI, muita coisa ainda precisa ser feita para que todos os brasileiros, independentemente de sua raça/etnia tenham condições decentes de vida.

terça-feira, 5 de março de 2013

A minha vida dos outros - Texto da Revista de História


Da Grécia antiga até o século XIX, a humanidade inventou e reinventou a privacidade

Rodrigo Elias
Manuais de etiqueta assinalam mudanças na percepção da vida social no século XIX. Modos mais discretos, por exemplo, ocorrem na prática do galanteio, como expressa o traço de Goujean.(Fundação Biblioteca Nacional)
Manuais de etiqueta assinalam mudanças na percepção da vida social no século XIX. Modos mais discretos, por exemplo, ocorrem na prática do galanteio, como expressa o traço de Goujean.(Fundação Biblioteca Nacional)
Manuais de etiqueta assinalam mudanças na percepção da vida social no século XIX. Modos mais discretos, por exemplo, ocorrem na prática do galanteio, como expressa o traço de Goujean.(Fundação Biblioteca Nacional)
Um pequeno livro publicado no Brasil há pouco mais de dez anos, chamado Esses livros que se lêem com uma só mão, do francês Jean-Marie Goulemot, revela o que seria o modelo oculto de toda narrativa literária moderna. O escrito pornográfico, lido no espaço supostamente indevassável da privacidade, levava ao ápice as sensações corporais do leitor, que deveria estar longe dos olhares da comunidade ou, no caso, das proibições do Estado e da Igreja. Esta clara divisão entre o domínio do público e o lugar da intimidade (neste caso, as sensações do próprio corpo) demarca claramente uma oposição entre as noções de público e privado que vemos florescer ao longo do século XIX.
Foi o historiador francês Philippe Ariès quem, formalmente, na década de 1980 inspirou os estudos mais recentes sobre o que convencionamos chamar de história da vida privada. Não que as questões de foro íntimo estivessem totalmente ausentes dos interesses de estudiosos do passado antes disso – como provam, inclusive no Brasil, estudos de um Gilberto Freyre ou de um Alcântara Machado. Ariès e os seus continuadores estiveram, entretanto, preocupados em delimitar um campo específico de estudos que levasse em consideração dois fenômenos paralelos no tempo e no espaço. Em primeiro lugar, o surgimento de um novo padrão de convivência social, não mais identificado com a vida na rua, na igreja e na praça, mas no interior de um espaço propriamente privado – a família nuclear consolidada no ocidente industrial, dita “burguesa”. Em segundo lugar, e de forma concomitante, estabelecia-se o Leviatã, isto é, o Estado Moderno, com a sua vontade de controlar tudo e todos, mas ao qual acabava escapando alguns aspectos: a vida particular, o âmbito propriamente privado da existência individual.
Com algumas nuances, na Europa e nas regiões sob sua influência direta, até boa parte da Época Moderna a vida das populações era controlada, em todos os seus aspectos, pelos olhos da comunidade – só era possível existir, dentro de uma concepção corporativa e hierárquica de sociedade, estando diretamente relacionado a outros membros da comunidade. Daí a rígida observação dos compromissos de irmandades religiosas ou o cumprimento absoluto das normas contidas em constituições de corporações de trabalhadores, como a dos sapateiros, dos ferreiros e até mesmo nos códigos de conduta dos ladrões – isto era, pelo menos, o esperado pelos guardiões da ordem. Afinal, não se podia fazer parte do corpo de Cristo estando totalmente separado dos seus outros membros. Todos eram conhecidos, ninguém era anônimo.
Para se ter uma ideia da ausência de um espaço legalmente privado – e, portanto, isolado dos olhares da vizinhança e dos agentes públicos –, processos inquisitoriais que caracterizavam o crime de sodomia perfeita (cópula anal com derramamento de sêmen) contavam com oitivas de testemunhas – ou seja, as condições de privacidade do casal “criminoso” eram tão precárias que permitam o testemunho de terceiros em seus mínimos detalhes. Alcovas sem portas, cômodos coletivos, adros de igrejas, beira de caminhos: espaços físicos se confundiam entre os olhares atentos dos vizinhos e uma, às vezes, imprudente ilusão de privacidade.
 Domenico Scandella, ou Menocchio, o moleiro italiano do século XVI que teve sua vida e suas ideias magistralmente perscrutadas por Carlo Ginzburg em O queijo e os vermes, desenvolveu um modo de vida e uma visão de mundo absolutamente desconectada de sua comunidade, seus senhores políticos e religiosos – o que incluía acreditar que os anjos e os homens surgiram espontaneamente da Terra, assim como os vermes brotam do queijo podre.  Seu destino não foi outro senão a fogueira.
A noção de indivíduo, que possui a sua personalidade e os seus direitos, começa a se consolidar definitivamente, em ambientes urbanos, a partir do século XVIII – a individualidade da autoria, ou seja, a ideia de que a cópia de alguma obra de arte ou literária de uma pessoa por outra constitui plágio é algo que só ficará claro no século XIX. Ao longo dos séculos anteriores, entretanto, com o crescente poder do Estado, com todo o seu aparato burocrático e policial, assim como a vigilância das autoridades religiosas – incitadas por católicos ou protestantes em busca dos desviantes da fé –, homens e mulheres passaram a buscar a liberdade criando uma outra dimensão da existência social: a vida privada. Práticas de leitura e escrita, os hábitos domésticos, a família conjugal, o amor romântico, o novo lugar das mulheres nas relações de gênero e a invenção da infância ocupam lugar central nesta diferenciação entre o que compete ao pai de famíliae aquilo que está sob tutela estatal.
A soberania privada no âmbito doméstico não é, seguramente, uma invenção burguesa no ocidente. Já Aristóteles mencionava os direitos do pater familias sobre os seus bens. Seu testamento, que chegou até nós e não é nem um pouco extravagante em relação aos seus concidadãos, deixa isto bem claro ao dispor da vida da esposa, dos filhos, das casas e dos escravos. A vida pública, ou política, como sabemos, era privilégio, na Atenas do período Clássico, dos cidadãos – o que não incluía homens sem propriedades, menores, escravos e mulheres.
A Idade Média e a Época Moderna, que viram emergir o poder político da Igreja e, mais tardiamente, dos Estados, viu também este espaço da privacidade diminuir, ao ponto em que chegamos ao período colonial, deste lado do Atlântico, com estes limites consideravelmente diluídos. Sobre os comportamentos e as consciências que pudessem destoar das ortodoxias cristãs, as polícias eclesiásticas exerciam uma quase sempre eficaz vigilância em todos os espaços, indistintamente. O controle direto sobre os corpos e que designaríamos mais tarde como “propriedade fundiária” cabia exclusivamente às máximas autoridades políticas – o rei era o proprietário do seu reino e senhor dos seus súditos. Antes da generalização de uma noção de propriedade privada da terra, que vai acontecer na Idade Moderna, a terra pertencia legalmente às cabeças coroadas, e eram apenas concedidas temporariamente aos seus administradores.
A necessidade de uma existência face-a-face, típica do período pré-industrial, é satisfeita com o surgimento da sociabilidade contemporânea, com os seus salões eruditos onde se recitava poesia e se ouvia quartetos de cordas, os restaurantes – que surgem no início da Época Moderna mas viram uma verdadeira febre no século XIX –  e os teatros que são ampliados e reformados, atingindo seu ápice na Belle Époque.Os manuais de civilidade ou etiqueta, um tipo de literatura muito comum na Época Moderna, que buscava preparar os indivíduos para esta nova vivência cotidiana, mostra a mudança na percepção da vida social. Se, no período anterior, beliscar o traseiro de uma mulher era um símbolo de interesse amoroso, reconhecido publicamente, a corte civilizada praticamente abolia o contato físico direto, e prescrevia modos mais discretos, como um olhar ou um gesto com o chapéu. Neste mesmo movimento, resguarda-se para o âmbito familiar um anonimato antes impensável.
O Estado, por sua vez, continuava a devorar a existência material da maior parte das populações, desta vez em favor do capital burguês industrial – o liberalismo, que vai ganhar lugar frente às inconciliáveis divergências de projetos de Estado na Europa assolada por nacionalismos conflitantes, vai criar uma ilusória vida pública de liberdades igualitárias (com exceção das mulheres, evidentemente). Mas vaitransferir para determinados segmentos sociais, privadamente, os “excedentes” dos pobres – como bem notou o jovem Karl Marx na década de 1840, escrevendo paraa Gazeta Renana, sobre a transformação do furto de lenha em “roubo qualificado” (na verdade, uma prática tradicional dos camponeses, colher lenha na floresta, outrora de uso comunitário – ou público – para se aquecer no inverno).
Público e privado, ao longo do século XIX, no Brasil ou alhures, acabaram se tornando concepções distintas – não apenas nos estudos históricos e sociais, mas na vida. Entretanto, quem chegou a controlar o público tornou-o seu privado. Por outro lado, o cidadão particular, aquele que não tem ao seu lado um poder de polícia, tem visto, desde então, o que é seu tornar-se, amiúde, público.

Rodrigo Eliasé professor das Faculdades Integradas Simonsen e pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.

Saiba Mais - Bibliografia

ARIÉS, Philippe. “Por uma história da vida privada”, in CHARTIER, Roger. Da Renascença ao Século das Luzes. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. (História da Vida Privada, vol. 3).
GINZBURG, Carlo. O Queijo e os VermesO cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
GOULEMOT, Jean-Marie. Esses livros que se lêem com uma só mão. Leitura e leitores de livros pornográficos no século XVIII. São Paulo: Discurso Editorial, 2000.
MACHADO, Alcântara. Vida e morte do bandeirante. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.



domingo, 9 de dezembro de 2012

O pensar e o conhecimento


O pensamento filosófico busca desnudar a nossa compreensão sobre o mundo, como forma de nos levar para além das aparências.  Leva-nos a perceber que as coisas não são simplesmente o que vemos. Há uma realidade que depende de certo esforço para ser tocada.

Valorizar essa capacidade de refletir sobre a vida e a sociedade é essencial atualmente. O sistema capitalista selvagem em que vivemos nos programa a não pensar. Na infância, tentamos nos compreender no mundo. É a fase dos porquês. Queremos saber a razão e o funcionamento de tudo. Não temos medo de fazer perguntas que para o outro possam parecer ridículas. Os anos iniciais na escola são provas disso. Mas pouco a pouco somos levados a acreditar que tais questões não são importantes nem necessárias, pois já existem respostas prontas para tudo. Cabe a nós aceitarmos a norma e o padrão que a sociedade ou os deuses deixaram. Nos dias de hoje, podemos dizer, aceitar o que os  meios de comunicação apontam como verdade.

A questão é que não podemos ser humanos plenos enquanto vivermos dessa forma. Talvez o que nos diferencie dos outros animais seja nossa capacidade de criar e recriar a nossa relação com o outro e o mundo. Dessa forma, precisamos repensar esse estar no mundo como algo não dado, mas que pode ser construído. Para isso precisamos voltar a pensar e a perguntar.

Dizem os doutos que é preciso aprender a pensar.  Alguns afirmam que esse deve ser o principal objetivo dos educadores. Concordo com a importância do desenvolvimento dessa habilidade de reflexão para a existência de seres mais cientes do seu estar no mundo, que possam reagir à apatia geral diante do sistema ideológico massificante. Temos a ilusão de vivermos muito informados, já que nunca se produziu tanta informação como hoje. Mas esse excesso de informação pode até atrapalhar a formação do saber, já que o que se valoriza é o acumulo e não a análise dos fatos.

Sabemos que o pensamento gera um certo desconforto, pois nos leva a ver além das sombras que estamos acostumados a compreender como a verdade. Pensar dói mais do que uma ferroada de abelha. Causa mais instabilidade que o pular de um cavalo bravio.  Pode gerar um mal-estar como uma pedrinha no sapato.  Entretanto, penso ser o caminho para uma sociedade de seres mais autônomos e responsáveis por suas ações e relações com o mundo. Seres que estabelecerão o seu próprio princípio de felicidade e não se submeterão simplesmente ao mercado. Seres que deixarão de ser "gado, marcado e feliz" como afirma a música "Admirável  gado novo" de Zé Ramalho.

Márcio Ramos