quarta-feira, 13 de abril de 2016

Apelo sobrenatural

A crença na magia e na feitiçaria era compartilhada por brancos e negros no Mato Grosso colonial

Mario Teixeira de Sá Junior
Quando viu aquele embrulho suspeito na porteira do curral do capitão Carlos de Oliveira em Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá, o preto alforriado Joaquim Moreira achou por bem averiguar o que havia ali dentro.  Encontrou, entre outros objetos, pedaços de couro, corais, uma argola de ferro, versos de uma oração e até mesmo alguns bicos de pássaros, tudo isso envolvido por um lenço de tabaco. Pensando ser feitiçaria, Joaquim ateou fogo naquelas coisas. Contrariado, o escravo Manoel Quiçamá, autor do embrulho, foi tomar satisfação, afirmando que “aquilo não era feitiço, mas remédio para curar os outros de feitiço”. 

As práticas de feitiçaria e magia faziam parte do dia a dia dos habitantes da região do Mato Grosso no século XVIII. Casos como o de Joaquim Moreira e uma série de denúncias sobre práticas de adivinhadores, rezadores, curadores e feiticeiros podem ser encontrados nos Autos da Devassa da Visita Geral da Comarca Eclesiástica de Cuiabá, realizada em 1785. Apesar de o Tribunal do Santo Ofício – braço da Igreja responsável pelo julgamento de crimes religiosos – não ter se estabelecido no Brasil, seus representantes realizaram sete importantes visitas, além de outras de menor impacto.

Os números da Devassa, que significa “investigação”, revelam aspectos muito interessantes sobre as acusações. Das 15 denúncias de prática de magia, 12 foram feitas por brancos. Em relação às acusações de feitiçaria, temos uma proporção próxima: das 48 acusações, 30 foram feitas brancos. Seguindo a mesma lógica, das 15 pessoas acusadas por magia, apenas seis eram brancas. Além disso, entre os supostos feiticeiros não havia sequer um branco. O grande número de denúncias de magia e feitiçaria feitas por brancos mostra como eles acreditavam que negros e índios usavam estas práticas nos conflitos cotidianos. 

Apesar de ambas apelarem ao sobrenatural e serem proibidas, as duas práticas tinham grandes diferenças. Enquanto a magia se ocupava de intervir na ordem natural, à feitiçaria cabia a tarefa de criar ou solucionador malefícios, lidando, direta ou indiretamente, com a presença dos agentes do mal. Por esta razão, era considerada um crime mais grave. Dessa forma, a magia se ocupava mais de ações como a cura de doenças por meio de rezas e remédios, e a feitiçaria buscava as forças do outro mundo, maléficas – segundo a Igreja –, para solucionar ou criar problemas. 

Se a crença nessas práticas era coletiva, o papel reservado a cada grupo social nelas envolvido era diferenciado. Enquanto ao branco cabia o papel de cliente, ao negro e ao índio estava reservado o de fazedor e curador do feitiço. Um exemplo de como os brancos temiam que a feitiçaria fosse usada contra eles por negros e índios encontra-se nos Anais de Vila Bela, de 1770. Buscando uma razão para a longevidade de um quilombo, o autor do documento recorre a explicações de outra ordem. Segundo ele, o quilombo teria como “maior oráculo o tal Piolho, por ter sido, em outro tempo, rei em um quilombo que se dissolveu nos matos da cidade do Rio de Janeiro”. O papel de destaque conferido ao oráculo sugere a crença de que os poderes “diabólicos” nos quais o quilombola Piolho se fiava – como afirmou o autor – teriam contribuído para a duradoura resistência do quilombo. Acreditar em tais denúncias significaria crer que o diabo realmente se colocava ao lado de negros, índios e seus parceiros, contra os brancos. 

O advogado e cronista Barbosa de Sá (17?/1776) registra um fato curioso ocorrido após a monção de 1734. As monções eram viagens em barcos que levavam tudo o que fosse necessário para se sobreviver e produzir nas minas e terras de Cuiabá e Mato Grosso entre os séculos XVIII e XIX. Após a frota ter passado pelo Rio Cuiabá e já ter alcançado o Rio Paraguai, avistaram-se fogueiras. Temendo encontrar índios guaicurus ou paiaguás, os marujos “rodaram mansamente sem fazer estrondo e antes da meia-noite chegaram aos fogos (ou seja, às habitações)”. Lá estavam os paiaguás, que já sabiam da presença daquela monção. Surpresos e impressionados, os expedicionários associaram o fato a uma “revelação dos seus feiticeiros (dos índios)”. 

Um outro caso reforça a tese de que africanos, indígenas e seus descendentes ocuparam em maior número o papel de magos feiticeiros. Em 1799, morreram cinco escravos do alferes Joaquim Paes. Dois feitores, o escravo Francisco Preto, o Suçu, e o branco José Barros, foram acusados de maus-tratos, o que teria provocado as mortes. Somente no processo de Suçu há um outro motivo para a acusação: o uso de feitiçaria. O mais curioso é que a denúncia foi feita pelos próprios escravos, colegas de Suçu. Isso demonstra que os atos de acusação não ficaram restritos aos brancos. Eles se disseminaram por toda a sociedade.

Nas práticas de feitiçaria, os conceitos de bem e mal, certo e errado, divino e diabólico podiam coexistir de forma ambígua, diferentemente do cristianismo. Se, por um lado, o feiticeiro podia ganhar uma reputação negativa, por outro, sua sabedoria era valorizada por muitos. Os conhecimentos sobrenaturais que lhes foram atribuídos seriam capazes de “explicar” e propor soluções para uma série de males e conflitos cotidianos enfrentados pelos seus contemporâneos. 

Mas, afinal, para que servia a feitiçaria? Assuntos ligados ao amor ou à saúde, problemas econômicos, sociais ou judiciais, entre outros, faziam parte da longa lista de motivos. Praticamente qualquer problema podia ser levado ao feiticeiro ou mago. 
Alguns souberam se aproveitar de tamanha demanda. Em uma denúncia, a testemunha branca Ursula Rondon relatou que Moxiba, escravo do capitão Carlos de Oliveira, teria ido atender uma escrava sua “enferma, que diziam enfeitiçada”. Após esfregar um frango sobre a cabeça da doente, Moxiba anunciou a aparição de certa quantidade de cabelo dentro da ave. Feitiço? Fraude? Não se sabe. 

Em outra denúncia, feita pelo minerador Francisco Garcia ao visitador do escravo Moxiba, ele afirma que o capitão Carlos recebia “jornal”, isto é, pagamento, do escravo. Apesar de muitos outros delatores terem relatado ignorar tal fato, é possível que as práticas servissem para uma espécie de “feitiçaria de ganho”, na qual o senhor ficava com uma parte do dinheiro e o escravo desfrutava de uma autonomia maior que a de costume. Os cativos ainda podiam sonhar com a compra de sua liberdade. 

Alguns dos feiticeiros de Mato Grosso eram escravos “quartados”, assim chamados porque haviam negociado o pagamento de sua alforria em um período de quatro anos ou mais. Era o caso de Manoel Quiçamá. Outros, como Maria Eugênia e Pai Miguel, já eram alforriados. 

A história de Pai Miguel nos mostra um outro papel reservado aos feiticeiros, o de solucionadores de mistérios – espécie de detetives auxiliados pelo sobrenatural. O minerador e proprietário de escravos Gaspar da Silva Rondon relata à Devassa que Lourenço Fontes, após procurar sem sucesso uma barra de ouro perdida, mandou chamar o feiticeiro. Depois de receber a quantia de dois tostões, Miguel começou “a rosnar consigo tendo na mão uma panelinha de barro, que tirara de dentro de um saco, na qual a panela mostrava ter dentro um óleo, ou azeite, e ajuntando a panelinha a boca estivera batendo-lhe com as mãos”. O feiticeiro afirmou, então, ter tido uma visão que lhe mostrara uma negra de Francisco Guimarães encontrando o ouro. Ao procurar a escrava, a vidência do feiticeiro se confirmou: a barra de ouro estava com ela. 

A documentação sobre Maria Eugênia revela ainda outros detalhes sobre a feitiçaria. Em carta ao governador Luís Cáceres (1739-1792), o capelão José Leitão descrevia o comportamento da feiticeira, que se encontrava presa na cadeia de Cuiabá, em 1778. Ele relata que, antes de enviar os requerimentos ou cartas ao governador em busca da sua liberdade, Maria Eugênia “pulverizava” os documentos e os passava “por certas fumaças”. Nesse caso, a feitiçaria deveria influenciar as decisões da Justiça. 

Mergulhar no fascinante e misterioso universo da feitiçaria no Mato Grosso do século XVIII nos permite ampliar os horizontes da história do período. Mas resta uma pergunta: o saldo de suas práticas trouxe aos feiticeiros mais conquistas ou perdas? Mesmo perseguidos e denunciados, muitos escravos conseguiram, graças a supostos dons sobrenaturais, afrouxar os grilhões e renegociar sua condição. 

Ainda hoje, basta caminhar pelo centro das grandes cidades brasileiras para nos depararmos com panfletos anunciando os serviços de feiticeiras e mães de santo que, entre outras proezas, trazem a pessoa amada em poucos dias. Este fato mostra como tais crenças permanecem vivas no Brasil, oferecendo soluções mágicas para pessoas que querem resolver problemas em suas vidas. Em outras palavras, somos herdeiros do feitiço. 

MARIO TEIXEIRA DE SÁ JUNIOR É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS E AUTOR DA TESE “MALUNGOS DO SERTÃO: COTIDIANO, PRÁTICAS MÁGICAS E FEITIÇARIA NO MATO GROSSO SETECENTISTA” (UNESP, 2008).


Saiba Mais - Bibliografia

BETHENCOURT, Francisco. O Imaginário da Magia: feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal no século XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

CRIVELENTE, Maria Amélia Assis Alves. Uma devassa nas Minas: imigração e moralidade na fronteira mais remota da colônia Mato Grosso, 1785. Cuiabá: Carlini & Caniato, 2006.

MELLO E SOUZA, Laura de. O Diabo na Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e religiosidade no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Quando o ferro virou arte

Das modernas fundições francesas saíam estátuas e chafarizes reproduzidos em todo o mundo. No Rio do século XIX, o escultor da moda era Moreau.

Eulalia Junqueira
De tão integrados ao cenário carioca, às vezes passam despercebidos. São mais de 200 e quando o passante enfim repara neles, revive um tempo em que se desfrutava tranqüilamente a contemplação artística em plena rua. As estátuas e os chafarizes em ferro fundido – presentes em prédios tradicionais, jardins, praças e parques – causaram grande impacto quando surgiram. Fruto da Revolução Industrial, eles fizeram sucesso na Europa, e de lá foram exportados para vários países. Era uma nova forma de arte, que simbolizava os ideais da época: modernidade e progresso.

Nas ruas do Rio de Janeiro, o nome de um artista francês tornou-se conhecido em meados do século XIX. Era de Mathurin Moreau (1821-1912) a maioria das peças encomendadas tanto pelo governo, para enfeitar espaços públicos, quanto por ricos particulares, para ornar residências. Sua obra mais imponente na cidade é o chafariz monumental do Jardim do Monroe, na Cinelândia. Adquirido provavelmente em 1878, tem dez metros de altura e foi realizado com a colaboração do arquiteto Liénard (1849-1900). Rodeado por um espelho d’ água – o que aumenta a grandiosidade de sua aparência –, o chafariz neoclássico impressiona pela habilidade técnica e pelo refinamento do artista. Taças transbordam água e jatos trêmulos dançam ao ritmo do vento molhando as figuras de inspiração grega – as belas cariátides, os fortes atlantes, os alegres zéfiros, as carrancas dos tritões e as crianças que representam os continentes.

Embora também tenha criado estátuas masculinas, entre elas um Cristóvão Colombo exibido no Museu da República, a mulher era a inspiração mais constante de Moreau. É o caso das alegorias da Aurora e do Crepúsculo, que iluminam a escadaria da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), na Avenida Pasteur, na Urca. E também a varanda do Museu da República. E o jardim do Tijuca Tênis Clube. O mesmo par de estátuas pode ser visto em Belém e no Recife.

Eis a grande novidade da época: a possibilidade de se reproduzir indefinidamente e com perfeição as peças artísticas de ferro fundido. Por conta do know-how adquirido no processo de industrialização, alguns países europeus aperfeiçoaram suas técnicas de fundição no século XIX, conseguindo dar ao ferro um outro destino: empregado desde a Antiguidade apenas para finalidades utilitárias, o metal transformou-se em matéria-prima para a fundição artística.

A técnica de reproduzir obras de arte em ferro fundido a partir da criação do escultor revolucionou o mercado. E Moreau participou diretamente desse processo. Além de criar mais de uma centena de obras, foi um dos administradores das Fonderies du Val d’Osne (Fundições do Val d’Osne), o principal centro de fundição artística da França. Dos fornos das Fonderies sairiam mais de 40 mil modelos. A matéria-prima mais barata que o bronze, aliada à produção em grande escala, permitia a comercialização a um custo acessível, tanto para os burgueses em ascensão social, ávidos por símbolos de prestígio, como para a decadente nobreza européia, preocupada em manter as aparências.

No início, a chamada “arte em série” provocou polêmica. Seria realmente arte ou era apenas um produto industrial? Alguns escultores a menosprezavam e continuaram trabalhando com o bronze, criando obras únicas ou de edição numerada, limitada a poucas cópias. Mas não demorou para que artistas importantes da época aderissem à novidade. Além de Moreau, escultores como Jean-Jacques Pradier (também conhecido como James, 1790-1852), Albert-Ernest Carrier-Belleuse (1824-1887), Henri Alfred Jacquemart (1824-1896) e Pierre Louis Rouillard (1820-1881) chancelaram a técnica e permitiram essa forma de democratização da arte, antes restrita a uma pequena elite.

A primeira “Exposição Universal”, realizada em Londres em 1851, e as que se seguiram apresentaram aos visitantes e compradores de todo o mundo as novidades mais representativas do progresso industrial. A fundição artística francesa atraía admiradores ao expor chafarizes monumentais e até mesmo ousar exibir estátuas sem retoques, para comprovar a qualidade excepcional das peças. Numerosas medalhas confirmaram a excelência da produção e estimularam a política de exportação.

A estratégia de vendas era arrojada. Catálogos com desenhos dos modelos mostravam as dimensões das peças, seu nome e autoria. Nos países da América do Sul, que estavam em processo de urbanização, as peças francesas foram recebidas com entusiasmo. Assim como ocorria no Brasil, também Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai foram grandes importadores da arte em ferro fundido.

O processo de fundição de uma estátua em tamanho natural era demorado. Exigia o envolvimento de uma dezena de especialistas e, em média, cem horas de trabalho. Algumas estátuas eram cópias de obras da Antiguidade greco-romana ou de escultores anteriores ao século XIX, como Guillaume Cousteau (1677-1746) e Pierre Lepautre (1660-1744), de estilo maneirista e barroco. Os moldes e os direitos de reprodução eram adquiridos de museus franceses, como o Louvre e Versailles, ou italianos, como os de Nápoles e Florença. As obras do século XIX eram de artistas acadêmicos, formados sob as exigências do neoclassicismo, excelentes em temas mitológicos, mas também sensíveis às influências românticas, exóticas, orientalistas, sensualistas, realistas e naturalistas.

Moreau formou-se pela Escola de Belas Artes de Paris e vinha de uma família de artistas. Além das múltiplas e produtivas atividades em prol da arte em série, seu talento deixou marcas em prestigiosos trabalhos realizados em Paris, como na Ópera, no Palais du Trocadéro, no Hôtel de Ville, Tuileries e no Palais de Justice. Suas criações refletem uma variedade de estilos. Uma das influências de sua época, presente em obras adquiridas pelo Brasil, é o exotismo. O tema estava em voga devido à expansão colonial e às viagens marítimas comerciais. Nas cinco estátuas situadas no jardim do Museu da República, Moreau se aproxima levemente da arte animalista, ao conceber obras exóticas com cerca de um metro de altura, denominadas “África”, “América”, “Europa”, “Ásia” e “Oceania”. Cada continente é representado por uma criança com tipo físico característico daquela região. E elas estão em luta com animais nativos: crocodilo, cobra, lobo, tigre e canguru. O mesmo conjunto embeleza Maceió, mas lá está incompleto, desfalcado da Oceania.

Já as alegorias de Moreau são repletas de mensagens cívicas e didáticas. Simbolizando o progresso, ele criou representações do Comércio e da Indústria, expostas no antigo prédio do Tribunal Regional Eleitoral, na Rua Primeiro de Março. Completam o conjunto as estátuas da Marinha e da Agricultura, no mesmo edifício. Exemplares da Indústria e da Agricultura também podem ser conhecidos em Florianópolis.

O primeiro grande divulgador da arte industrial no Brasil foi o botânico e paisagista francês Auguste Glaziou (1833-1906), que a partir de 1860 reformou o Passeio Público, criou o Campo de Santana e a Quinta da Boa Vista. Ele costumava inserir exemplares de ferro fundido nos jardins que projetava, principalmente no Rio de Janeiro. O sucesso foi imediato, mas a indústria nacional não tinha como se engajar nesse tipo de produção. Isso porque, apesar da abundância da matéria-prima, as fundições foram inibidas durante muito tempo pela administração colonial. A produção brasileira de ferro destinava-se apenas a grades, portões, objetos utilitários diversos, vasos decorativos e pequenos chafarizes. Nossas oficinas não podiam competir com a invasão de peças de boa qualidade e baixo custo trazidas do Velho Continente, como as obras de Moreau. As esculturas do artista se espalharam pelo Brasil e encantaram a capital do país que pretendia ser a “Paris dos Trópicos”.

E assim como o mundo se espelhava em Paris, o Brasil se espelhava na Corte. O resultado é que importantes obras artísticas e decorativas de ferro fundido são ainda hoje encontradas no estado do Rio de Janeiro e também em Amazonas, Pará, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Elas eram adquiridas, geralmente, durante os períodos de apogeu dos ciclos econômicos regionais. Além de sua presença em logradouros públicos, nos jardins, na fachada e no interior de sedes de empresas e instituições, os palacetes e residências nobres também passaram a ostentar várias peças.

As esculturas de Mathurin Moreau são testemunhos de uma época em que a arte do ferro espalhou-se pelo mundo, com sotaque francês. Não à toa, o principal símbolo da França é uma monumental obra feita inteiramente de ferro, construída em 1889. Porém, ao contrário dos exemplares de fundição artística, Torre Eiffel só tem uma.

Eulalia Junqueira é jornalista e pesquisadora, autora dos livros Arte francesa do ferro no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Memória Brasil, 2005) e Fontes d’art; chafarizes e estátuas franceses do Rio de Janeiro (com Elisabeth Robert-Dehault e Antonio Bulhões. Paris: Les Éditions de l’Amateur/ ASPM/ FBM, 2000).

Saiba Mais - Bibliografia:

ABRANTES, Nicolau. História da fundição artística no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Vecchi, 1979.

BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussmann tropical: a renovação urbana da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes; Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural; Divisão de Editoração, 1992.

MAGALHÃES CORRÊA, Armando. Terra carioca: fontes e chafarizes. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1939.
O fim do anonimato

O Rio de Janeiro foi a primeira cidade da América do Sul a localizar, identificar e inventariar as obras de fundição artística de procedência francesa. Uma pesquisa realizada em 1993 tirou do anonimato estátuas, chafarizes, fontes, candelabros, portões, gradis, vasos e outros elementos ornamentais expostos nos espaços públicos cariocas. Foram inventariadas cerca de 200 peças, grande parte de autoria de Moreau. O projeto foi desenvolvido por meio de um intercâmbio de informações entre a Prefeitura da Cidade, através da Fundação de Parques e Jardins, e a Association pour la Sauvegarde et la Promotion du Patrimoine Métallurgique Haut-Marnais, uma associação francesa criada para a promoção e proteção do patrimônio metalúrgico de Haute-Marne, região que concentra diversas fundições. O levantamento restringiu-se a locais de acesso público. Se fossem consideradas as peças pertencentes a particulares, em poder de leiloeiros ou em lojas de antiguidade, além dos exemplares desaparecidos, o total de peças seria bem mais elevado. Por sua antiguidade, valor histórico e artístico, as peças localizadas no Rio de Janeiro foram tombadas pelo patrimônio municipal no ano 2000. Providência fundamental para preservar para o futuro estas obras de arte que já têm mais de um século de existência. Embora algumas estejam em bom estado, outras, relegadas e abandonadas, necessitam urgentemente de restauração.

A Enciclopédia, recenseamento do saber

No século XVIII, Diderot e D’Alembert organizaram a primeira obra que colocava ao alcance dos leitores o conjunto dos conhecimentos filosóficos e científicos disponíveis na época. Era o início de uma revolução intelectual

Joëlle Chevé

Museu Nacional do Castelo de Malmaison, Rueil-MalmaisonFilósofos Iluministas reunidos no salão de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet-Charles Lemonnier, 1812Em 1751 foi editado o primeiro volume da Enciclopédia, de Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert. A peripécia intelectual e editorial sem precedentes provocou na Europa, ao mesmo tempo, entusiasmo e aversão. A obra tinha a ambição de colocar ao alcance do leitor todo o conjunto de conhecimentos humanos derivados da razão. Mas, já no fim do século XVIII, o trabalho foi acusado de estar na origem da Revolução Francesa, dado que também o movimento bebeu na fonte do Iluminismo.

Alguns estudiosos do século XIX aprofundaram essa visão e identificaram nos volumes o triunfo do liberalismo reformador e a reabilitação do trabalho popular. O historiador francês Jules Michelet, por exemplo, exaltava em Diderot a alma e o caráter da revolução. Já o intelectual alemão Karl Marx avançava mais e denunciava o desvio do espírito das Luzes pela classe burguesa.

Críticas à parte, a história da Enciclopédia revela um nível ímpar de idealismo. Em 1740, o livreiro parisiense André Le Breton estava em busca de um projeto que colocasse à disposição do público, a um preço razoável, uma informação competente, filosófica, científica e técnica, na língua do país e livre da pressão erudita das obras acadêmicas.

A moda então eram os livros ingleses. Com seus três sócios, Le Breton decidiu traduzir e editar a Cyclopaedia de Ephraim Chambers, uma espécie de dicionário de vários assuntos publicado em Londres em 1728. Surgiu, contudo, todo tipo de dificuldades entre editores e colaboradores. Em 1747, os livreiros franceses decidiram apelar a Diderot e D’Alembert para que ambos dirigissem a concepção e a realização da obra.

Biblioteca Nacional, ParisFrontispício da primeira edição da obra, publicada na França em 1751Diderot tinha o perfil intelectual adequado, e sua associação com d’Alambert, matemático próximo dos meios aristocráticos e membro da Academia das Ciências, deu à obra uma chancela oficial. Do empenho de ambos no projeto resultou a necessidade de ir além do dicionário de Chambers, limitado demais, em particular no campo das artes mecânicas, da agronomia e das ilustrações.

Para reforçar o novo texto, optou-se pelo uso de imagens, procedimento pedagógico que seria um dos maiores trunfos da Enciclopédia. Os temas foram apresentados sob a forma de uma árvore inspirada na do filósofo inglês Francis Bacon. A filosofia era o tronco, enquanto a teologia foi destronada e relegada a um ramo, em companhia das ciências ocultas e da magia!

O tom estava dado: a Enciclopédia, dicionário racional das ciências, das artes e dos ofícios era ao mesmo tempo uma obra de informação e um manifesto. Havia o desejo expresso de romper com um passado considerado ignorante e obscurantista e afirmar o advento de uma nova era, fundada nas luzes da razão e na fé no progresso.

A filosofia foi, a partir de então, considerada uma disciplina guia, encarregada de acabar com os preconceitos e superstições que se opunham à razão, transformada em uma espécie de nova religião. Ocorre que havia muitas divergências entre os filósofos. O suíço Jean-Jacques Rousseau e o francês François-Marie Arouet (ninguém menos que Voltaire) eram deístas. Já Diderot e os também franceses Paul-Henri Thiry (cujo pseudônimo era Baron d’Holbach) e Claude-Adrien Helvétius eram ateus.

Coleção ParticularPágina ilustrada descreve o trabalho e os utensílios do confeiteiro: o uso de imagens foi um dos maiores trunfos pedagógicos da EnciclopédiaAs divergências não paravam aí. Rousseau proclamava a liberdade do homem e as virtudes da solidão, enquanto Diderot via o ser humano em uma lógica mais determinista na qual a sociedade tinha um papel quase preponderante. Mesmo assim, todos concordavam com o princípio de melhorar o homem e organizar a sociedade, em vez de questionar a existência de Deus, com o qual o homem não tinha uma experiência sensível por definição.

Além disso, todos tinham o mesmo dever: ampliar o campo do conhecimento e esclarecer a humanidade por meio de educação baseada na observação e na razão. Os enciclopedistas se consideravam um baluarte dessa nova pedagogia, que tomou ares messiânicos.

Diderot trabalhou nessa obra anos a fio e se cercou de uma equipe de aproximadamente 150 colaboradores reconhecidos – dois quintos deles permaneceram anônimos. O recrutamento levou em conta competências, não posição social. Assim, havia eruditos e práticos, proprietários e funcionários. A despeito da lenda, porém, nenhum negociante ou grande mercador participou da obra. E nenhum operário ou camponês.

Outros nomes célebres sistematicamente associados àEnciclopédia tiveram participação ínfima, como Charles de Montesquieu, morto na França em 1755. Rousseau, que contribuiu com 390 artigos de música e outros de economia política, retirou-se do projeto em 1757, furioso com um texto redigido por D’Alembert, que já andava cansado de ataques e proibições oficiais e também abandonou o barco. Voltaire apoiava a causa, mas sem muito esforço – seus artigos literários ou históricos careciam de brilho.

Depois de 1759, a maioria havia desertado. Diderot, decepcionado, recorreu a uma equipe menor e menos célebre para redigir os dez últimos tomos de textos.

Enciclopédia pareceu desde o início uma máquina de guerra contra a Igreja. Para driblar a censura, os autores se valeram de uma esperteza: reservaram poucos “sacrilégios” aos textos sobre cristianismo, por exemplo. Mas em outros textos e verbetes, sobre outros temas, há referências irônicas sobre o Espírito Santo e as vestimentas do papa. Essa graça, quase uma codificação, fez grande sucesso entre leitores antirreligião.

Até meados do século XVIII, a desconfiança dos censores da universidade Sorbonne – então totalmente dominada pela Igreja – não repousava sobre os filósofos enciclopedistas. O caso do abade de Prades, que escreveu o artigo Certeza para a obra, abriu-lhes os olhos. Prades era acusado de heresia por causa de sua visão particular da teologia. O conselho do rei Luís XV reagiu proibindo os dois primeiros volumes daEnciclopédia.

Não bastasse, em 1758, a obra do colaborador Helvétius, Do espírito, desencadeou uma crise. Os meios tradicionais e as autoridades passaram a considerar a Enciclopédia como um monumento de heresia e perversidade. Em 6 de fevereiro de 1759, o Parlamento de Paris condenou a obra. Foi seguido pelo Conselho de Estado e por Roma. Religiosos que viviam às turras, como jesuítas e jansenistas, aliaram-se contra os selvagens cacouacs, alcunha que designava os enciclopedistas.

Proibida, a obra continuou disponível a quem quisesse, já que a autorização dos livreiros não foi revogada. E seu sucesso continuava imenso, na verdade ampliado pela polêmica. Havia uma excitação geral, intelectual e política. O Estado era mais bem tratado que a Igreja pelos enciclopedistas, mas havia restrições à monarquia. No artigo Economia, Rousseau lançou as bases do livro Do contrato social, e, aqui e ali, os privilégios dos nobres contrastavam com a vida rude do povo.

Os enciclopedistas, contudo, não encorajavam a revolução, pois tinham a certeza de ser eles próprios os protótipos do novo gênero humano: eis uma concepção elitista que afastava de suas preocupações a reivindicação de igualdade universal. Nesse sentido, a Enciclopédia era um produto de seu tempo. Seus idealizadores e seus leitores vieram de classes sociais cujas representações e expectativas se inscreviam em uma corrente racional e liberal amplamente compartilhada com os notáveis e com uma parte da corte.

Por ocasião do lançamento do último tomo, em 1772, Diderot avaliou que a obra estava monstruosa e deveria ser retomada de A a Z. Em 1775, o editor Charles-Joseph Panckoucke iniciou um trabalho de revisão e de complemento, aEnciclopédia metódica, concluída em 1832.

Mesmo com o conhecimento técnico já ultrapassado em muitos aspectos – permanecem com desconcertante atualidade suas teorias sociais –, a obra nunca perdeu o interesse como documento histórico. Seus autores foram pioneiros de um mundo contemporâneo que multiplicou infinitamente o sonho do Iluminismo.

Museu do Louvre, ParisDenis Diderot, que dedicou 25 anos de sua vida à compilação do conhecimento do século XVIII. Óleo sobre tela,Louis Michel
van Loo, 1767

Boêmio, mas estudioso

Nascido em 1713, era filho de um cuteleiro rico. Recebeu educação sólida de jesuítas, mas até os 29 anos levou uma vida de boêmio, embora estudioso, pontuada por breves empregos. Isso lhe permitiu dedicar-se à paixão por matemática, latim, grego, inglês, teatro e conversação.

Um casamento precipitado, o nascimento de quatro filhos e uma amante dispendiosa o obrigaram a buscar fontes de renda menos aleatórias que as traduções e os trabalhos filosóficos que lhe rendiam mais prestígio que dinheiro. Foi então que aceitou dirigir o grande projeto do livreiro Le Breton. Trabalhou nele 25 anos.

Se a Enciclopédia, com sua natureza abrangente, o afastou um pouco da filosofia, foi graças à obra e à sua curiosidade intelectual insaciável que se tornou, segundo as palavras de Rousseau, “uma cabeça universal”. Seus inimigos muitas vezes o criticaram por nunca concluir o que havia começado. Injustiça: ele só foi liberado da Enciclopédia em 1765.

A maior parte da obra de Diderot foi conhecida postumamente. Parecia caótica devido à multiplicidade de seus centros de interesse: filosofia e moral (nos livros O sobrinho de RameauA religiosaO pai de famíliaJacques, o fatalista), estética (O paradoxo do comedianteEnsaios sobre a pinturaSalões) e crítica literária.

Fonte :
http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/a_enciclopedia_recenseamento_do_saber.html

sexta-feira, 25 de março de 2016

MÁQUINAS, MULTIDÕES, CIDADES E PERDAS


Maria Stella Martins Bresciani

Para além da força emocional da retórica poética e literária em geral, presente nos textos dos homens cultos do século XIX, aparecem com igual impacto os delineamentos de uma nova sensibilidade. Convencidos de estarem vivendo no limiar de uma "nova era", prenhe de um potencial transformador ainda não avaliado, eles se lançaram à empresa de anotar em seus escritos os sinais visíveis dessa novidade de dimensões desconhecidas e assustadoras. O sentido de desenraizamento expresso na perda de identidade social e de formas de orientação multisseculares, aparece de maneira recorrente elaborando a imagem de uma crise de proporção e conteúdo inéditos. Sem dúvida, os termos desarraigado e desenraizado falam do homem arrancado de sua íntima relação com a natureza, mas paradoxalmente apontam para a nova condição humana de vencedor da natureza. Afinal, atribuía-se aos engenhos astuciosos fabricados pelos homens - as máquinas com seus mecanismos irresistíveis e incansáveis - essa vitória na guerra com a rude natureza. A máquina foi apontada como expressão simbólica e material dessa vitória que lograra emancipar o homem do limitado destino de ser subjugado aos imperativos do mundo físico. À máquina o século XIX conferiu todo p poder transformador e produtor da abundância e apostou nela como possibilidade, não muito remota, de superação do reino da necessidade (superação de um mundo sempre às voltas com a escassez de recursos para manter o crescimento ilimitado do gênero humano), mas também a ela foi conferido o poder transformador da estrutura social (the fabric of society), o que colocava em algo exterior ao próprio homem a potência movimentadora do novo sistema social (social system).

Máquinas, multidões, cidades: o persistente trinômio do progresso, do fascínio e do medo. O estranhamento do ser humano em meio ao mundo em que vive, a sensação de ter sua vida organizada em obediência a um imperativo exterior e transcendente a ele mesmo, embora por ele produzido. Registros de perdas e de imposições violentas encontram-se nos escritos de homens que se auto-representaram contemporâneos de um ato inaugural... É a constituição dessa "nova sensibilidade" que procura acompanhar neste artigo, na certeza de que, hoje, o sentido de emancipação da máquina em relação ao homem se expressa na aceitação de uma lógica interna ao próprio progresso técnico e repõe a insólita experiência vivida pelo homem quando considerou, a si mesmo, por sua astúcia, vitorioso sobre a natureza.

Para penetrar nos meandros dessa nova sensibilidade decidi percorrer alguns textos, onde literatos, médicos, advogados, filósofos, filantropos, estadistas, em suma, o homem letrado em geral, expressaram o sentimento de perdas diversas e de viverem situações paradoxais: registros semelhantes encontrei também em depoimentos de trabalhadores rurais e fabris, de vendedores ambulantes, artistas de rua, enfim de toda a grande parcela da população que subsiste através do trabalho de suas mãos.

Quais perdas?

A representação do tempo regido pela natureza perde-se e junto com ela a medida do tempo relacionada às tarefas cíclicas e rotineiras do trabalho. Se desfaz um ajuste entre o ritmo do mundo físico e as atividades humanas, o que implica a dissolução de um;i relação imediata, natural e inteligível de compulsão da natureza sobre o homem. Perda que implica a imposição de uma nova concepção do tempo: abstrato, linear, uniformemente dividido a partir de uma convenção entre os homens, medida de valor relacionada à atividade do comerciante e às longas distâncias. Tempo a ser produtivamente aplicado, que se define como tempo do patrão - tempo do trabalho, cuja representação aparece como imposição de uma  instância captada pelo intelecto, porém, presa a uma lógica própria, exterior ao homem, que o subjuga. Delineia-se uma primeira exterioridade substantivada no relógio, concomitantemente artefato e mercadoria.

Na atividade do trabalho uma outra perda. A unidade do homem com suas condições de produção e com a finalidade dessa produção definida pelas suas próprias e limitadas necessidades cinde-se numa dupla exterioridade: de extensões inorgânicas de seu corpo orgânico, as ferramentas se autonomizam materializando-se na máquina, vale dizer, tornando dispensável a arte de suas mãos: de finalidade da produção, o homem passa a ser uma das engrenagens de um processo que objetiva repor a própria produção. O trabalhador despojado das condições objetivas do trabalho é reduzido à mera subjetividade, à força de trabalho.

Os sistemas de trabalho com base em relações pessoais se desfazem substituídos pela impessoalidade das relações do mercado. O vínculo entre o mestre-artesão e seu aprendiz, certeza de trabalho, e aquisição de uma destreza específica e de uma identidade profissional rompe-se; a relação patrão-operário tem um caráter puramente mercantil e sobre ela se erige uma representação que a coloca em uma instância transcendente ao homem - a lei da oferta e da procura inscrita na natureza das relações humanas - que, produto da atividade intelectual, passa a ser interpretada como princípio férreo de ordenação do social.

Uma última perda: o homem, em especial o trabalhador fabril e urbano em geral, arrancado dos vilarejos e impelidos a levar uma vida agressiva nas cidades. Perda do habitat tradicional, onde conjugava-se o trabalho artesanal com o labor dos campos; onde toda a família encontrava condições de trabalho e onde a vida não aparecia cindida em tempo do patrão e lugar do trabalho contrapostos a tempo do descanso e lugar de morar.

O registro de cada uma dessas perdas se fez presente no decorrer de três séculos, pelo menos, e culmina nos inícios do século XIX, na percepção de que o homem ao sobrepujar-se à natureza havia caído na armadilha de sua própria astúcia. A cidade moderna representa o momento culminante desse longo processo e também o lugar onde se acumulam homens despojados de parte de sua humanidade; em suma, lugar onde a subordinação da vida a imperativos exteriores ao homem se encontra levada às últimas conseqüências. Fascínio e medo; a cidade configura o espaço por excelência da transformação, ou seja, do progresso e da historia; ela representa a expressão maior do domínio da natureza pelo homem e das condições artificiais (fabricadas) de vida.

É ainda importante anotar a solidariedade entre o conjunto dessas perdas e a elaboração intelectual de uma distância entre o homem e seus semelhantes; a elaboração da figura de um sujeito de conhecimento capaz de estabelecer um distanciamento considerado necessário para a observação e avaliação da natureza. A relação de exterioridade, corrente na avaliação da natureza, estende-se, no século XIX, como experiência de conhecimento para as relações entre os homens. O olhar analítico e classificador procura imobilizar em momentos sucessivos de avaliação tudo aquilo que vê em constante movimento e que precisa permanecer em contínua movimentação. O fluxo ininterrupto dos homens no trabalho, dos homens se deslocando pelas ruas, dos homens ocasionalmente fora do trabalho, dos homens que tiram seu sustento trabalhando nas ruas, dos homens que vagam recusando-se a trabalhar, dos homens que se mantêm através de expedientes pouco confessáveis: tudo é submetido a esse olhar avaliador. A cidade se constituirá no observatório privilegiado da diversidade: ponto estratégico para apreender o sentido das transformações, num primeiro passo, e logo em seguida, à semelhança de um laboratório, para definir estratégias de controle e intervenção. Não por acaso, à frase de Vítor Hugo: "A França observa Paris e Paris observa o faubourg Saint Antoine" (Os Miseráveis), corresponde um axioma da polícia londrina. "Guarde-se St. James vigiando-se St. Giles."

Nos dois casos, os objetos de constante vigilância são os bairros operários, cujo potencial de revolta é considerado mais ameaça-dor, onde, portanto, os sinais da revolução podem ser detectados. Nesses anos cinqüenta do século passado, tinha-se já formulado um quadro conceitual que, recolhendo inúmeras experiências de investigação da nova sociedade, permitia distinguir na diversidade aparente duas entidades distintas e antagônicas. É parte dessa nova sensibilidade a expressão "Duas Nações", cunhada por Disraeli para falar do abismo existente entre ricos-civilizados e pobres-selvagens. Descontado o apelo emocional, a expressão possui uma força explicativa plástica, pois remete imediatamente para a imagem de uma sociedade cindida em duas partes irreconciliáveis, com identidades próprias e diferenciadas.


 Bresciani, Maria Stella Martins. Metrópoles: As Faces do Monstro Urbano (A Cidades no Século XIX). In: Revista Brasileira de História. São Paulo, ANPUH/Editora Marco Zero, 1984/85, v. 5, nº 8/9, pp. 36-40.

quarta-feira, 9 de março de 2016

O requerimento de 1513

Da parte do rei, Dom Fernando, e de sua filha, Dona Juana, rainha de Castela e de Leão, domadores de povos bárbaros, nós, seus servos, notificamos e fazemos saber a vocês, da melhor maneira que podemos, que Deus nosso Senhor, uno e eterno, criou o céu e a terra, e um homem e uma mulher, de quem nós e vocês e todos os homens do mundo foram gerados e são descendentes, bem como todos que vieram depois de nós. Porém, devido à multidão de descendentes que geraram esse homem e essa mulher nos mais de cinco mil anos desde que o mundo foi criado, foi necessário que alguns homens fossem para uma região e outros para outra, e que se dividissem em muitos reinos e províncias, visto que em uma só não se podiam sustentar e conservar.

De todos esses povos Deus nosso Senhor designou um homem, chamado São Pedro, para ser senhor de todos os homens do mundo e para que a ele todos obedecessem; para que fosse dirigente de toda a raça humana onde quer que vivessem os homens, debaixo de qualquer lei, fé ou crença. A ele Deus deu o mundo por reino e jurisdição, e mandou que tomasse assento em Roma, como lugar mais adequado de onde pudesse reger o mundo e julgar e governar todos os povos, fossem cristãos, muçulmanos, judeus, gentios ou de qualquer outra fé ou crença. A esse deu-se o título de Papa, porque quer dizer admirável, grande pai e governador de todos os homens.

Os que viviam naquele tempo obedeceram a este São Pedro e tomaram-no por senhor, rei e dirigente do universo, e aqueles que depois de São Pedro foram eleitos ao pontificado têm recebido a mesma consideração. Assim tem permanecido até o dia de hoje, e assim permanecerá até que acabe o mundo.

Um dos pontífices passados que sucedeu São Pedro nessa dignidade e nesse trono na qualidade de senhor do mundo doou estas ilhas e estas terra firmedo mar Oceano aos ditos Rei e Rainha e aos seus sucessores, com tudo que contém estes territórios, como está registrado em certos documentos que discorrem sobre o que foi dito, e que vocês poderão examinar caso desejarem.

Portanto, em virtude da mencionada doação, suas majestades são reis e senhores destas ilhas e desta terra firme. Algumas ilhas, e na realidade praticamente todas que têm sido notificadas desta maneira, têm recebido suas majestades como reis e senhores, e os têm obedecido e servido como súditos devem fazer: servindo com boa vontade e sem nenhuma resistência e portanto sem atraso, assim que foram informados dos fatos acima mencionados. Esses povos obedeceram e acolheram do mesmo modo os religiosos que suas altezas lhes enviaram para pregar e ensinar a nossa Santa Fé; todos eles de sua livre vontade e de bom grado, sem prêmio nem condição alguma, tornaram-se cristãos e assim permanecem, e suas majestades os acolheram com alegria e benignidade, e em conformidade mandaram que fossem tratados como os demais súditos e vassalos – sendo que vocês estão sujeitos e são obrigados a fazer o mesmo.

Pelo que, da melhor maneira que podemos, rogamos e requeremos que vocês entendam bem o que dissemos, e que tomem para entendê-lo e deliberar sobre ele o tempo que for justo; que reconheçam a igreja como senhora e dirigente do mundo universo, e ao Sumo Pontífice, chamado Papa, em seu nome, e ao Rei e à Rainha Dona Juana, nossos senhores, em sua condição de dirigentes e reis destas ilhas e terra firme, por virtude da mencionada doação, e que consintam e deem ocasião para que esses padres religiosos declarem e preguem o que acima foi dito.

Se concordarem em fazer aquilo a que estão sujeitos e obrigados, estarão fazendo bem. Suas altezas, e nós em seu nome, os acolheremos com todo amor e caridade, e deixaremos livres e sem escravidão a vocês, a suas mulheres e filhos e às suas terras, para que façam delas e de vocês mesmos o que bem entenderem e quiserem, e não os obrigarão a tornarem-se cristãos – a não ser que, informados da verdade, queiram converte-se à nossa santa Fé Católica, como têm feito quase todos os habitantes das ilhas vizinhas. Além disso, suas majestades lhes darão privilégios e regalias e lhes concederão inúmeros benefícios.

Se assim não fizerem, ou se maliciosamente adiarem a decisão, certifico que com a ajuda de Deus entraremos poderosamente no seu território, faremos guerra contra vocês de todos os modos e maneiras possíveis, e os sujeitaremos ao jugo e à obediência da Igreja e de Suas Majestades. Tomaremos como escravos a vocês, suas mulheres e seus filhos, e como tais os venderemos e disporemos deles do modo que ordenarem Suas Majestades, e tomaremos os seus bens, e a vocês faremos todos os males e danos de que formos capazes, como a vassalos que não obedecem nem querem receber ao seu senhor, mas o resistem e contradizem. E com a presente declaramos que as mortes e danos que de tudo isso resultarem serão culpa de vocês e não de Suas Majestades ou nossa, nem desses cavalheiros que nos acompanham. E de que diante de vocês dissemos e requeremos essas coisas pedimos que firme por escrito o presente escrivão, e que sejam testemunhas os demais presentes.

Fonte:http://www.baciadasalmas.com/requerimiento


domingo, 7 de fevereiro de 2016

Quem eram os bárbaros?

"Dentre os vários significados, a palavra bárbaro designa um indivíduo sem civilização, ignorante, rude, inculto e outros significados como cruel, bestial, desumano. Pode-se dizer que a origem é o etnocentrismo, que é a tendência de se pensar que a própria cultura, os próprios valores, o próprio idioma são modelos para todos os outros povos. Para os gregos, que não compreendiam as línguas dos povos do norte, o que eles faziam não era falar, era balbuciar, gaguejar. O som que produziam para os ouvidos gregos, era alguma coisa como “bar-bar”,  o que se transformou em bárbaros e depois na palavra latina barbarus. Esse termo passou a ter significado de estrangeiro, isto é, não-grego e não-romano. Um termo derivado da palavra bárbaro é barbarismo que serve para denominar erros de linguagem. Nos primeiros séculos da Era Cristã,  houve grandes migrações e invasões bárbaras, sobretudo de germanos que invadiram o Império Romano do Ocidente.  Por serem muito violentos, a palavra passou a ter como significado feroz, cruel, desumano,  apesar desse aspecto negativo, uma das derivações do latim barbarus é brabus, que deu no nosso “bravo” e que significa “enraivecido, colérico”,  mas existe, também, com o sentido de “valoroso, corajoso, destemido”,  o que pode ter como base o espírito destemido dos guerreiros bárbaros."

"A referência aos bárbaros, que em grego antigo significava apenas estrangeiro, foi usada pelos romanos para designar os povos que viviam fora de suas fronteiras e não partilhavam os seus costumes e cultura e nem a sua organização política.  O termo  expressa o estranhamento de povos com culturas diferentes daquelas praticadas pelos romanos.Esse termo já foi utilizado pelos gregos para se referir aos romanos e também por outros povos. Mas, a forma que conhecemos mais é seu uso pelos romanos para se referir aos povos germanos que migraram para a Europa  no período citado. Em algumas regiões, essa migração ocorreu com conflitos entre romanos e germanos, por isso essa migração também foi chamada por alguns de invasão."
Fonte: Origem curiosa das palavras – Márcio Bueno
As Invasões bárbaras
Saiba mais: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=79