terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dia Nacional da Consciência Negra


O dia 20 de novembro é denominado o Dia Nacional da Consciência Negra. É uma referência à morte de Zumbi, o então líder do Quilombo dos Palmares, em 1695. Zumbi é visto como um dos símbolos de resistência negra à escravidão.  Essa data é marcada por várias críticas e oposições, já que muitos a consideram desnecessária, pois vivemos em um país plurirracial, e ao se estabelecer um dia para celebrar uma raça, estaríamos fomentando o preconceito racial. Minhas reflexões a seguir tentarão compreender a importância de uma data como essa para os brasileiros.

A primeira questão a se colocar é que se há uma data especifica para se pensar nacionalmente a questão racial negra é porque ela não está resolvida. Ainda hoje, os dados estatísticos apontam que a população negra brasileira tem mais dificuldade de inserção no mercado de trabalho, menor grau de escolarização e pouco acesso aos bens culturais. Esse fato é inegável. O argumento de que esse problema é simplesmente social, pois fruto da má distribuição de renda histórica em nosso país não me parece correto, pois pode ser entendido como um reforço à discriminação racial, já que os negros e pobres sofrem duplo preconceito, ou seja, além do preconceito de classe, o negro pobre ainda enfrenta o preconceito racial.

Os mais de 300 anos de escravidão em nossa sociedade estabeleceram e congelaram os papeis sociais entre brancos e negros, estigmatizando determinadas funções como sendo de pretos e outras de brancos. Naturalizou-se assim a ideia de que existe um lugar para os negros, e se eles ficarem quietinhos ali não sofrerão discriminação. Quando o negro ousa abrir a boca, “O branco cala ou deixa a sala com veludo nos tamancos”, afirma a música “Respeitem meus cabelos, branco”, de Chico Cesar. Não se estabelece o diálogo, pois a questão é rebaixada como algo de menor importância, chamada de “mimimi”.

É interessante notar que quando se fala no 13 de maio, que é o dia da Lei Áurea, há pouca resistência a ele. Ora, a ideia de que a escravidão no Brasil chegou ao fim devido à bondade da princesa Isabel não atormenta às elites culturais e econômicas do país. Mas o 20 de novembro é problemático para esses setores, pois ele coloca os negros como protagonistas de sua história, já que é a memória da resistência negra que é resgatada.  Como afirma o historiador Mário Maestri, “se apurarmos o ouvido, escutaremos os atabaques chamando às armas, anunciando a chegada dos negreiros malditos. Sentiremos a reverberação dos tam-tans lançados do fundo da história, lembrando às multidões que labutam, hoje, longuíssimas horas ao dia, não raro até a morte por exaustão, por alguns punhados de reais, nos verdes canaviais dessas terras que já foram livres, que a luta continua, apesar da já longínqua morte do general negro de homens livres.”

O Dia Nacional da Consciência Negra é importante para refletirmos sobre como a sociedade tem lidado com o racismo, já que o mito da democracia racial nos impede até de discutirmos o assunto. Penso que, em uma sociedade igualitária de fato não seria preciso o estabelecimento de dia do negro, do índio, da mulher, do combate à homofobia etc. Mas enquanto tais questões não forem resolvidas, o debate tem que ocorrer e todos nós temos um dever moral de nos posicionarmos quanto a esse problema.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Zumbi vive na Serra da Barriga



Em 20 de novembro de 1695, Nzumbi dos Palmares caía
lutando em mata perdida do sul da capitania de
Pernambuco. Seu esconderijo fora revelado por lugar-
tenente preso e barbaramente torturado. Mutilaram seu
corpo. Enfiaram seu sexo na boca. Expuseram a cabeça
do palmarino na ponta de uma lança em Recife. Os
trabalhadores escravizados e todos os oprimidos deviam
saber a sorte dos que se levantavam contra os senhores
das riquezas e do poder.
Em 1654, com a expulsão dos holandeses do Nordeste,
os lusitanos lançaram expedições para repovoar os
engenhos com os cativos fugidos ou nascidos nos
quilombos da capitania. Para defenderem- se, as aldeias
quilombolas confederaram- se sob a chefia política do
Ngola e militar do Nzumbi. A dificuldade dos
portugueses de pronunciar o encontro consonantal
abastardou os étimos angolanos nzumbi em zumbi,
nganga nzumba, em ganga zumba. A confederação teria
uns seis mil habitantes, população significativa para a
época.
Em novembro de 1578, em Recife, Nganga Nzumba
rompeu a unidade quilombola e aceitou a anistia
oferecida apenas aos nascidos nos quilombos, em troca
do abandono dos Palmares e da vil entrega dos cativos
ali refugiados ou que se refugiassem nas suas novas
aldeias.
Acreditando nos escravizadores, Ganga Zumba deu as
costas aos irmãos de opressão e aceitou as miseráveis
facilidades para alguns poucos. Abandonou as alturas
dos Palmares pelos baixios de Cucuá, a 32 quilômetros
de Serinhaém. Foi seduzido por lugar ao sol no mundo
dos opressores, pelas migalhas das mesas dos
algozes.
Então Nzumbi assumiu o comando político-militar da
confederação.
Para ele, não havia cotas para a liberdade ou
privilegiados no seio da opressão! Exigia e lutava
altaneiro pelo direito para todos!
Não temos certeza sobre o nome próprio do último
nzumbi que chefiou a confederação após a defecção de
Nganga Nzumba. Documentos e a tradição oral
registram-no como Nzumbi Sweca.
Nos derradeiros ataques aos Palmares, as armas de
fogo e a capacidade dos escravistas de deslocar e
abastecer rapidamente os soldados registravam o maior
nível de desenvolvimento das forças produtivas
materiais do escravismo, apoiado na superexploração
dos trabalhadores feitorizados. As tropas luso-
brasileiras eram a ponta de lança nas matas palmarinas
da divisão mundial do trabalho de então.
Não havia possibilidade de coexistência pacífica entre
escravidão e liberdade. Palmares era república de
produtores livres, nascida no seio de despótica
sociedade escravista, que surge hoje nas obras da
historiografia apologética como um quase paraíso
perdido, onde a paz, a transigência e a negociação
habitavam as senzalas. Palmares era exemplo e atração
permanentes aos oprimidos que corroíam o câncer da
escravidão.
Como já lembraram, nos anos 1950, o historiador
marxista-revolucionário francês Benjamin Pérret e o
piauiense comunista Clóvis Moura, a confederação dos
Palmares venceria apenas se espraiasse a rebelião aos
escravizados dos engenhos, roças e aglomeração do
Nordeste, o que era então materialmente impossível.
Palmares não foi porém luta utópica e inconsequente.
Por longas décadas, pela força das armas e a
velocidade dos pés, assegurou para milhares de homens
e mulheres a materialização do sonho de viver em
liberdade de seu próprio trabalho. Indígenas, homens
livres pobres, refugiados políticos eram aceitos nos
Palmares. Eram braços para o trabalho e para a
resistência.
A proposta da retomada da escravidão colonial em
Palmares, com Zumbi com um “séquito de escravos
para uso próprio”, é lixo historiográfico sem qualquer
base documental, impugnado pela própria necessidade
de consenso dos palmarinos contra os escravizadores.
Trata-se de esforço ideológico de sicofantas
historiográficos para naturalizar a opressão do homem
pelo homem, propondo- a como própria a todas e
quaisquer situações históricas.
Palmares garantiu que milhares de homens e mulheres
nascessem, vivessem e morressem livres. Ao contrário,
em poucos anos, os seguidores de Ganga Zumba foram
reprimidos, re-escravizados ou retornaram fugidos aos
Palmares, encerrando- se rápida e tristemente a traição
que dividiu e fragilizou a resistência quilombola.
A paliçada do quilombo do Macaco foi a derradeira
tentativa de resistência estática palmarina, quando a
resistência esmorecia. Ela foi devassada em fevereiro de
1694, por poderoso exército, formado por brancos,
mamelucos, nativos e negros, entre eles, o célebre Terço
dos Enriques, formado por soldados e oficiais africanos
e afro-descendentes. Não havia e não há consenso
racial e étnico entre oprimidos e opressores.
O último reduto palmarino, defendido por fossos,
trincheiras e paliçadas, encontrava- se nos cimos de
uma altaneira serra.
A Serra da Barriga e regiões próximas, na Zona da Mata
alagoana, com densa vegetação, são paragens de beleza
única. Quem se aproxima da serra, chegado do litoral,
maravilha-se com o espetáculo natural. O maciço
montanhoso rompe abruptamente, diante dos olhos, no
horizonte, como fortaleza natural expugnável, dominando
as terras baixas, cobertas pelo mar verde dos canaviais
flutuando ao lufar do vento.
Se apurarmos o ouvido, escutaremos os atabaques
chamando às armas, anunciando a chegada dos
negreiros malditos. Sentiremos a reverberação dos tam-
tans lançados do fundo da história, lembrando às
multidões que labutam, hoje, longuíssimas horas ao dia,
não raro até a morte por exaustão, por alguns punhados
de reais, nos verdes canaviais dessas terras que já
foram livres, que a luta continua, apesar da já longínqua
morte do general negro de homens livres.
Mario Maestri é professor do programa de pós-
graduação em História da UPF.
Fonte:
http://www.brasildefato.com.br/node/11171
Escultura de Zumbi dos Palmares na praça da Sé, em
Salvador (BA) -
Foto: Gorivero/CC

sábado, 3 de novembro de 2012

Mês da Consciência Negra


O mês de novembro é importante para nós brasileiros, pois é um
período em que se aprofunda a reflexão sobre a inserção do negro
em nossa sociedade.  No dia 20 se celebra a memória de Zumbi dos
Palmares, representante das lutas históricas dos afro-brasileiros
contra a exploração, a exclusão e o preconceito social.
Para começarmos a pensar e a discutir sobre isso,
vejamos essa música do Chico César:

Respeitem meus cabelos, brancos
Chegou a hora de falar
Vamos ser francos
Pois quando um preto fala
O branco cala ou deixa a sala
Com veludo nos tamancos

Cabelo veio da áfrica
Junto com meus santos

Benguelas, zulus, gêges
Rebolos, bundos, bantos
Batuques, toques, mandingas
Danças, tranças, cantos
Respeitem meus cabelos, brancos

Se eu quero pixaim, deixa
Se eu quero enrolar, deixa
Se eu quero colorir, deixa
Se eu quero assanhar, deixa
Deixa, deixa a madeixa balançar.








Saiba mais sobre a história dos negros. Clique aqui


Esteja à vontade para dar sua opinião.

História da África

Márcio Ramos

A África é freqüentemente associada à pobreza, guerras civis, miséria, subdesenvolvimento. Quando muito é lembrado que ela é a região de belezas naturais, como o deserto do Saara, das zebras e elefantes etc. Na realidade, a  África é uma região com muita história para contar, apesar de muita gente insistir que ela não possui história, já que foi lá que o homem surgiu. E foi de lá que saiu uma enorme contribuição para o desenvolvimento cultural e econômico de todo o mundo.


Para entendermos a história africana, é preciso perceber que o continente foi formado por diversos povos, que se organizavam desde a formação de clãs, passando por reinos e verdadeiros impérios.
Foi na África que se desenvolveu um dos povos mais famosos da Antiguidade, os egípcios. Mas além do Egito, vários povos existiram na região.  Ao sul do Egito, numa região chamada Núbia, desenvolveu-se a  civilização kush. Seu período de maior glória foi por volta de 1700 a.C. A  capital era a cidade de Kerma. Kush era governado por um monarca absolutista, que se colocava acima das leis.
O povo núbio tinha a pele bem escura e recebeu influencia da cultura egípcia. Mas os túmulos dos seus reis(que chegavam a 90 metros de altura) tinham câmaras maiores do que qualquer pirâmides.
Um dos pontos mais importantes da organização dos povos africanos era a questão da família. Devidos às constantes epidemias e crises econômicas nos diversos povos africanos, ter filho era fundamental, o que leva os iorubas a afirmarem, que “sem filho estás nu”. A quantidade de filhos era importante para o status social dos pais, além de serem essenciais em uma economia predominantemente agrícola.
A África possuiu várias civilizações em toda a sua história. E muitos desses povos que se desenvolveram ao norte do continente tiveram contato com os europeus e árabes.  Os árabes no século XI, espalhando a fé islâmica, conseguem conquistar  essa região. Dessa forma, muitos povos do norte da África se tornaram islâmicos nesse período.

Os povos africanos possuíam formas de organizações diferentes entre si. Bem antes da chegada dos europeus, várias sociedades formaram reinos e impérios .Havia o reino de Gana, do  Mali, Zimbabwe, reino Sudaneses, Congo, entre outros. Algumas regiões possuíam cidades importantes. Na Costa do Gabão, se desenvolveu um grande aglomerado de aldeias, Mbansa Kongo , e Benim foi descrita por um viajante como uma cidade enorme, possuindo 15.000 habitantes. Outra cidade, Kano, era cercada por sete quilômetros de muralhas.
Segundo os árabes, o reino de Gana era tão rico, que no palácio o rei, os cachorros tinham coleiras de ouro. Na capital havia casas de pedras de dois andares, onde moravam os nobres e altos funcionários do Estado. Os mais pobres vivam em cabanas  de terra cobertas de palhas.
            Os povos iorubás se desenvolveram onde hoje é a Costa do Marfim. Possuíam capitais, que eram o seu centro administrativo e político, com palácios e templos. As cidades mais famosas eram Oio e Ifé. Eles formavam uma verdadeira federação de cidades, e muitas delas eram maiores que as cidades europeias no mesmo período. Elas eram cercadas de muralhas de pedras e habitadas por nobres artesãos, comerciantes e camponeses. Os camponeses saiam de manha para trabalhar na lavoura. Todos tinham que pagar impostos para o governo, controlado pelos nobres, que também eram comandantes militares. Os iorubás importavam cavalos do Sudão central e os utilizavam no exercito.  
            Quando se iniciava na Europa o processo de expansão marítima, outro povo se desenvolvia na costa oeste do continente, o Congo. Ele era um reino forte e estruturado, tendo diversas províncias, e sua capital, Mbanza, possuía mais de 100.000 habitantes. A sociedade congolesa se dividia em nobreza, camponeses e escravos, a poligamia era pratica comum, e o que definia a descendência era a mãe. Com a chegada dos europeus, o rei de Portugal travou uma relação comercial durante muitos anos com o rei do Congo, que até batiza no catolicismo e muda de nome para agradar, ou manter o comercio entre eles. Seu nome Nzinga-a-Nkuvu muda para D. João I.
No século XV os europeus começam o processo de exploração do continente. Inicialmente os negociantes europeus adquiriam marfim, pimenta e ouro. Depois, quando se iniciou a colonização da América no século XVI, passaram a ter um grande e terrível interesse: obter escravos.
Havia duas maneiras de os comerciantes europeus obterem escravos africanos. O primeiro era direto: desembarcavam soldados que invadiam uma aldeia e capturavam seus moradores. O segundo modo era indireto. Os povos africanos faziam guerras entre si e vendiam os prisioneiros para os comerciantes europeus. Algumas nações africanas chegaram a  enriquecer atacando outras nações e vendendo os habitantes aos traficantes de escravos.
Entre os povos africanos havia escravos. Eles eram obtidos através de guerras, condenados pela justiça e endividados.  A existência de escravos facilitou o sucesso do trafico. Mas foram as ações dos europeus na busca de novos cativos que provocaram o aumento dos conflitos entre os povos. Havia escravidão mas não escravismo, como bem distinguiu a historiadora Marina de Mello de Souza. Escravidão é o uso de pessoas destituídas de seus direitos sociais, afastada de seu grupo de origem, obrigada a cumprir ordens de seu senhor, podendo ser castigada e, principalmente vendida como escrava.  Já o escravismo se refere a sociedades fundadas principalmente na utilização do trabalho escravo, o que não era o caso dos africanos e sim dos europeus colonizadores da América.
No período colonial foram trazidos para o Brasil cerca de 5 milhões de africanos para serem escravizados. Foram considerados “coisa”,  instrumento de trabalho para os “senhores”. Durante todo esse período houve resistência da comunidade negra. E a resistência continua até hoje, pois os resultados da escravidão são sentidos pelos negros e seus descendentes, através do racismo e da desigualdade social.
A África foi pouco a pouco sendo ocupada pelos europeus, mesmo com toda a resistência de seus habitantes. A partir do final do século XVIII, após a Revolução Industrial, a cobiça européia se volta para o continente, que acabou sendo dividido pelos impérios da Europa.

            No início do século XIX, os povos africanos estavam organizados em grandes impérios, como os zulus ao sul. Mas as transformações internas, onde muitas sociedades começaram a reagir com mais intensidade contra a presença européia, leva a um domínio quase que completo no continente. Só para se ter uma ideia, em 1800, apenas 1/10 da África estava sob controle europeu. Já em 1900 essa porcentagem beirava a 9/10.  Essa conquista era justificada pelas idéias Positivistas e de Progresso que vigoravam na Europa, que afirmavam que era dever dos mais fortes “proteger” os mais fracos. O homem branco possuía um “fardo” enorme, que era levar a “civilização” aos Bárbaros africanos. Esse discurso foi usado para dominar, explorar as riquezas da África e desestruturar toda a sociedade africana.

Bibliografia:
DAVIDSON, Basil. O fardo do homem negro. Os efeitos do estado-nação em África. Lisboa: Campos das Letras, 1992.
OLIVIER, Roland. A Experiência Africana: Da Pré História aos Dias Atuais. RJ, Jorge Zahar Ed, 1994.
Ancestrais: uma introdução à História da. África Atlântica, Mary Del Priore e Renato. Pinto Venâncio. José Alexandre da Silva


Veja mais:
Documentário História da África

Africanos no Brasil


Márcio Ramos

Geralmente quando se pensa na presença de africanos no Brasil só lembramos da escravidão, essa nódoa “ilavável” em nossa história. Temos que compreender que a escravidão de fato ocorreu e nos marcou, mas precisamos compreender melhor como se deu essa presença. Quais povos africanos foram trazidos para cá? Como viviam lá na África? Como se organizaram aqui em nossas terras? Quais suas contribuições para nossa sociedade? Tentemos pensar sobre algumas dessas questões.

Os iorubás e ambundos são os grupos  étnicos mais conhecidos entre os africanos que chegaram no Brasil, mas não eram os únicos. Havia os iacas, os guns, os angola, nagô, mina, dentre outros.  Os negros não pertenciam a um mesmo povo, mas sim possuíam tradições, crenças, valores e costumes bem diferentes entre si. Em suas terras, “alguns andavam de camisolão até os pés e gorro na cabeça, aquele não tinha mais do que um pano entre as pernas, amarrado na cintura. Aqui, as mulheres entrançavam os cabelos com contas e conchas; ali, cobriam a cabeça com véu ou turbante; acolá raspavam o crânio.”[1]


Cada povo tinha habilidades específicas, dependendo da região de onde viam. Isso explica o fato de  alguns negros produzirem fornos de altíssima qualidade, outros trouxeram técnicas de mineração, como a bateia e a escavação das minas. Alguns, como os povos axantes, criavam joias de grande beleza. Apesar da proibição de Portugal, os africanos produziam tecido para seu uso, usando  teares simples como os usados na África.

Eles influenciaram a construção de moradias no Brasil. As casas pobres se inspiraram nos modelos africanos, com tetos em duas águas, e não cônica como em Portugal. Além disso, a ideia de construção de varandas nas casas também é de origem da África.  Nessas varandas, as crianças ouviam os relatos fantásticos de diferentes nações africanas, cujos personagens e enredos se misturavam com as historias dos nativos indígenas e dos europeus. Exemplo disso são as historias do Curupira, de origem tupi, e dos moatia, dos povos axantes, que eram personagens muito parecidos, pois eram pequenos e tinham os pés virado para trás, alem de controlarem os animais selvagens.

As festas e danças próprias dos africanos vieram para o Brasil junto com eles. Os maracatus, congados e reisados são exemplos dessa atividade cultural de grande importância, que serviam para preservar viva a memória da África. A dança era fundamental, pois, “não se dançava apenas pela alegria do convívio. Dançava-se também para reverenciar os deuses e recebê-los na alma”[2]

Ainda em relação à cultura, diversas foram as religiões africanas que foram trazidas para o Brasil. Cada povo que aqui chegou tinha a sua crença religiosa. Algumas acabaram sendo absorvidas por outras religiões ou simplesmente desapareceram. Os portugueses fizeram de tudo para aculturar os africanos, fazê-los acreditar que só o catolicismo era a religião correta e possível, mas eles, em sua maioria, resistiram a essa violência.

Entre as religiões que sobreviveram, o culto aos orixás foi o que atingiu o maior numero de seguidores.  Essa religião era própria do povo ioruba, que viviam na região da atual Nigéria, mas que se universalizou e se tornou a crença de outros grupos, e hoje é a mais conhecida. Mas entre os povos da África havia alguns que eram muçulmanos, cristãos e de varias outras religiões.

Enfim, é importante conhecer e valorizar a contribuição dos povos africanos para a formação do Brasil. É necessário perceber que a idéia de africano é uma construção social e histórica. Obviamente eles não se viam assim, mas como gã, evés, acuamus, auoris, nagô, baribas, etc.  Para cá foram trazidos mais de uma centena de povos diferentes.Chamá-los todos de africanos foi uma forma de uniformizá-los e facilitar sua dominação pelos portugueses. 



[1] COSTA e SILVA, Alberto da. “Um Brasil, muitas Áfricas”, IN, Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, n. 78, Março de 2012.
[2] COSTA E SILVA, op. Cit. p. 20. 

domingo, 28 de outubro de 2012

Ginga, a incapturável

Poderosa rainha africana, Nzinga Mbandi resistiu à invasão portuguesa, guerreou e exerceu a
diplomacia para se manter no poder por quase 40 anos
Mariana Bracks

Não foi fácil para Portugal retirar milhares de pessoas da África para servirem como escravos na
América. Longas lutas de resistência foram travadas contra a colonização, que contava com
altos investimentos militares e uma política que combinava opressão, violência e alianças com
chefes locais.



A trajetória de Nzinga Mbandi é um exemplo de como os chefes centro-africanos enfrentaram o
avanço português. Hábil guerreira, estrategista política e militar, Nzinga foi uma líder
carismática, uma rainha que passou a vida combatendo e morreu sem nunca ter sido capturada.
Nasceu em 1582, filha do oitavo Ngola (do qual derivaria o nome Angola), título do principal
régulo do reino do Ndongo. Os portugueses haviam iniciado a colonização a partir de Luanda
sete anos antes, e foram ganhando o interior com a construção de “presídios” – fortificações
militares no curso do Rio Kwanza, que abrigavam os comerciantes de escravos – e a
organização de feiras em que a principal mercadoria eram as pessoas escravizadas. Criaram
também um sistema de avassalamento de sobas , os chefes locais autônomos que pagavam
tributos ao Ngola em troca de proteção militar e espiritual. Após a invasão portuguesa, eles eram
batizados e se declaravam fieis à Coroa. Essa condição incluía diversos compromissos: fornecer
baculamentos (tributos pagos geralmente em escravos), dar passagem às tropas do governo,
permitir kitandas (feiras e mercados) em seu território e contribuir com escravos para serem
soldados da “guerra preta” – o pelotão que lutava junto aos portugueses.

A guerra se generalizava, e com ela o clima de instabilidade. Os sobados intensificavam ataques
a povoados vizinhos para saldar suas dívidas com os portugueses, pois os prisioneiros
capturados em guerra eram escravizados. Ao sinal de qualquer atitude considerada infiel, o
governo português invadia os sobados e matava seus líderes, substituindo-os por chefes aliados.
Foi nesse contexto de penetração portuguesa no reino do Ndongo, movido pelo tráfico negreiro,
que Nzinga Mbandi cresceu. No reinado de seu irmão Ngola Mbandi, agravou-se a tensão entre
os locais e os conquistadores. Em 1617, o governador de Angola, Luis Mendes de Vasconcelos,
invadiu o reino do Ndongo para construir o presídio de Mbaka, a poucas milhas da Cabaça, a
moradia do Ngola. O resultado foi uma guerra intensa, ao fim da qual Ngola, vencido, refugiou-
se na ilha de Kindonga, no Rio Kwanza. Em 1622, João Correia de Sousa assumiu o governo e
decidiu procurar o Ngola para restabelecer a paz, uma vez que o cenário de guerra paralisara os
mercados de escravos. Foi quando Nzinga entrou em cena.

Ngola Mbandi mandou sua irmã mais velha como embaixadora para negociar a paz com os
portugueses. Na audiência com o governador, ela impressionou a todos por sua inteligência e
habilidade diplomática. Defendeu a manutenção da independência do Ndongo e o não
pagamento de qualquer tributo à Coroa portuguesa, mas se mostrou aberta ao comércio.
Entendendo que a paz com os portugueses passava pelo batismo cristão, aceitou o sacramento:
recebeu o nome de D. Anna de Sousa, tendo como padrinho o próprio governador. De sua parte,
os portugueses se comprometeram a efetivar a retirada do presídio de Mbaka.
O acordo, porém, não foi cumprido nem por aquele governador nem pelos sucessores. A situação
levou ao enfraquecimento político de Ngola Mbandi, que morreu na ilha de Kindonga, em 1624,
em circunstâncias que continuam sendo uma incógnita para a historiografia de Angola. Nzinga
se apoderou das insígnias reais e assumiu o trono do Ndongo.

A nova rainha foi associada à possibilidade de libertação do povo Mbundo, etnia predominante
no reino Ndongo. As crescentes fugas de kimbares – escravos que guarneciam os presídios ou
eram dados pelos sobas para comporem a “guerra preta” – enfraqueciam as tropas lusas,
enquanto fortaleciam o exército de Nzinga. Aproveitando-se desse contexto favorável, a rainha
lançou uma campanha antilusitana, formando e liderando uma confederação de descontentes
com a colonização. Conquistou o apoio de sobas que já haviam se avassalado, além de
poderosos chefes que não pertenciam ao Ndongo, como o Ndembo Mbwila (Ambuíla).
Capturar Nzinga e reduzi-la à obediência passou a ser um dos objetivos principais do governo
português. Em 1626, o governador de Angola, Fernão de Sousa, arquitetou um golpe político para
que Are a Kiluanje, um vassalo dos portugueses, assumisse o trono. Nzinga se refugiou na ilha
de Kindonga e conseguiu se livrar do cerco usando sabiamente a geografia do local, deslocando-
se pelas diversas ilhas do Rio Kwanza. Quando as tropas lusas enfim a encurralaram em
Kindonga, ela mandou seus embaixadores informarem que estava disposta a se render e se
avassalar. Para isso, no entanto, pediu uma trégua de três dias. Passado o prazo, os
portugueses perceberam que tinham caído em um golpe: Nzinga já estava longe dali.
A rainha foi então buscar proteção junto aos temidos jagas , guerreiros nômades que se
organizavam em kilombos – acampamentos que se deslocavam conforme as necessidades de
guerra, com rígida hierarquia e severa disciplina militar. Nzinga recebeu o título feminino mais
importante no kilombo – Tembanza –, assumindo funções rituais essenciais. Imprimiu
consciência política aos bandos, que até então viviam errantes, praticando roubos e sem se
prenderem a linhagens. Sob o comando de Nzinga, os kilombos passaram a compor a frente de
resistência contra a ameaça estrangeira. O incrível poderio bélico que Nzinga conseguiu
mobilizar junto aos jagas foi crucial para se manterem livres e vencer os portugueses por várias
vezes.

Por volta de 1630, Nzinga ocupou o reino de Matamba (Ndongo Oriental), terra evocativa de seus
ancestrais e tradicionalmente governada por mulheres. Foi na condição de rainha de Matamba
que ela soube da invasão holandesa em Angola, em 1641. Ali estava uma oportunidade de
estabelecer nova aliança para minar a presença portuguesa na região. Nzinga aproximou-se dos
invasores, e juntos criaram uma importante rota comercial que conectava Luanda (agora de
posse holandesa) a Matamba, trocando escravos por mercadorias europeias, sobretudo armas de
fogo.

Era fundamental para a oligarquia do Rio de Janeiro restabelecer o domínio do mercado de
escravos em Angola. Isso foi conseguido em 1648 por iniciativa de Salvador de Sá, que
organizou tropas formadas por índios e bandeirantes para expulsar os holandeses. A vitória lusa
teve o efeito direto de enfraquecer a rainha Nzinga. Suas duas irmãs foram capturadas e
mantidas como reféns pelos portugueses. Kifunge acabou assassinada em Massangano, acusada
de espionagem. Mocambo ficou presa em Luanda, utilizada como arma política a fim de forçar a
rendição de Nzinga.

O papa Gregório XV, com o objetivo de diminuir o poder que as coroas ibéricas tinham
acumulado com as colonizações, criara em 1622 a Propaganda Fide – a “propagação da fé” –,
que permitiu a ida à África Central de missionários que não tinham relações com a Coroa
portuguesa. Entre eles estavam os capuchinhos, que chegaram à região na década de 1640.
Nzinga enxergou nesses religiosos outra possibilidade de fazer novos aliados europeus que não
fossem ligados ao governo português. Por meio do capuchinho italiano Antonio de Gaeta, Nzinga
retornou ao catolicismo em 1656, renegando os ritos gentílicos e aceitando a fé de Cristo. A
conversão ao cristianismo foi uma saída estratégica, pois, já idosa, ela sabia que a cruz seria o
caminho mais rápido para a paz e para conseguir o retorno de Mocambo, sua irmã indicada à
sucessão de Matamba, enfim libertada pelos portugueses em 1657.

A líder de Matamba morreu em dezembro de 1663, com mais de 80 anos, sepultada de acordo
com os ritos cristãos. O povo Mbundo a venerou como “rainha imortal”, que nunca se entregou e
que jamais aceitou a submissão aos invasores. Sua fama atravessou o Atlântico e chegou ao
Brasil. Aqui, o nome Ginga, ou Jinga, é evocado em rodas de capoeira, em congados e
maracatus de múltiplas formas: como guerreira que engana os adversários, inimiga da corte
cristã, venerável ancestral de Angola.


Mariana Bracks é autora da dissertação “Nzinga Mbandi e as guerras de resistência. Século
XVII” (USP, 2012).
Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/ginga-a-incapturavel-1

sábado, 27 de outubro de 2012

Unidos pelo tráfico

Entre os anos 1600 e 1800, mais de 3,1 milhões de pessoas, só da região Centro-Ocidental da
África, embarcaram rumo à escravidão nas Américas e em ilhas africanas como São Tomé. No
entanto, a escravidão na África é bem anterior à presença dos europeus no continente. O reino
do Congo, por exemplo, já usava mão de obra escrava para o serviço militar, administrativo e na
agricultura antes da chegada dos portugueses, no início do século XVI. A chegada dos lusitanos
modificou e intensificou a prática, uma vez que Congo e Angola eram pontos estratégicos na
transferência de escravos do interior para a costa. A aliança entre a nobreza congolesa e os
portugueses rendeu bons frutos: ambos aumentaram seus lucros com o tráfico e conseguiram
expulsar os “terríveis” Jagas ,que ocuparam a capital entre 1568 e 1572 . Além disso, a elite do
Congo podia investir em lavouras em São Tomé, administrada pelos portugueses. Lá, os ricos
congoleses casavam suas filhas com os portugueses residentes, fortalecendo ainda mais a
aliança.
Os acordos com os europeus eram importantes para os africanos num cenário em que estes
soberanos tinham dificuldade em consolidar seus domínios e manter centralizado seu território.
Os lusitanos não eram os únicos com interesses na região, muito menos os únicos a fazer
acordos. Os ingleses e holandeses também estavam por lá, e em 1640, com a ajuda da rainha
Nzinga, expulsaram os portugueses de Luanda. Só que por pouco tempo.

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/mapa